Skip links

Radiofármacos: alta tecnologia para diagnóstico e tratamento de doenças

Da molécula radiomarcada ao corpo humano, Medicina Nuclear personaliza cuidados e transforma tratamentos.

Em uma radiofarmácia, a manipulação de radiofármacos acontece com segurança, utilizando-se equipamentos complexos de proteção para os profissionais.

A Medicina Nuclear observa o corpo humano por uma perspectiva que vai além da anatomia: órgãos, tecidos e células são avaliados enquanto funcionam, revelando alterações precoces que exames convencionais não conseguiriam detectar. No centro desse método, estão os radiofármacos, medicamentos compostos por moléculas carreadoras ligadas a elementos radioativos (radioisótopos) emissores de radiação alfa, beta, gama ou pósitron. A molécula carreadora é responsável por levar essa porção radioativa até os tecidos ou órgãos alvos, seja para gerar imagens, seja para conduzir tratamentos.

Neste segundo capítulo da série Decodificando a Medicina Nuclear, que mostra como a ciência se conecta ao cuidado clínico, aprofundamos a função e a relevância dos radiofármacos.

Conversamos com o Dr. Fabio Luiz Navarro Marques, radioquímico do setor de Radiofarmácia do Centro de Medicina Nuclear da Faculdade Medicina da Universidade de São Paulo, tesoureiro da Sociedade Brasileira de Biociências Nucleares (SBBN) e pesquisador associado ao CEPID CancerThera; o Dr. Leonardo Lima Fuscaldi, radiofarmacêutico, professor assistente da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e pesquisador associado ao CancerThera; e o Dr. Gustavo Gomes, médico nuclear e 1º secretário da Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear e Imagem Molecular (SBMN), profissionais que cobrem desde o desenvolvimento dos medicamentos até suas aplicações em diagnósticos e terapias.

O que são radiofármacos e como atuam no corpo

“Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), radiofármacos são medicamentos que contêm um ou mais radioisótopos em sua forma pronta para uso, com finalidade diagnóstica ou terapêutica”, informou Fabio Luiz Navarro Marques. A molécula carreadora se conecta a receptores de células alteradas em tumores, tecido cardíaco ou tecidos neurológicos, e a porção radioativa ajuda a localizar essas moléculas distribuídas no corpo ou elimina células-alvo, como ocorre em terapias oncológicas.

Leonardo Lima Fuscaldi ressalta que o ponto forte dos radiofármacos está na interação molecular, pois a afinidade por órgãos ou tecidos do corpo faz com que a energia liberada pelo radioisótopo acompanhe a molécula até o alvo. “Dependendo do tipo de radiação emitida pelo radioisótopo, pode ocorrer uma ação terapêutica, com deposição de energia nas células-alvo para eliminá-las, como no tratamento do câncer, ou a radiação pode ser detectada pelo equipamento, gerando a imagem molecular”, comenta.

“Os exames de medicina nuclear têm uma vantagem em relação a outros métodos de diagnóstico justamente por serem pouco invasivos e por permitirem identificar alterações precocemente”, completa Gustavo Gomes. Frequentemente, os procedimentos apontam alterações funcionais antes que mudanças na estrutura dos órgãos apareçam em exames tradicionais, como a tomografia.

Escolhendo o alvo molecular: a base da precisão

A escolha do alvo molecular é fundamental para a precisão da Medicina Nuclear. Segundo Marques, um bom alvo deve ser expresso principalmente em tecidos doentes, com mínima expressão em tecidos saudáveis ou ter expressão aumentada em células alteradas. Já Fuscaldi recorre a uma metáfora para detalhar a lógica molecular: “é como se fossem chave e fechadura”. A célula tumoral expressa proteínas ou receptores na superfície, mais que a célula saudável. Esse alvo molecular é a “fechadura”, a molécula do radiofármaco é a “chave” que se liga a ele, e o radioisótopo funciona como o “chaveiro”, acompanhando a molécula até o alvo.

“Os radiofármacos podem ser utilizados para a localização de alvos específicos. Podemos realizar um exame diagnóstico, utilizando radiofármacos para a tomografia por emissão de pósitrons (PET) e, uma vez positivo para a doença, esse paciente torna-se elegível para uma terapia. Isso é a personalização, a identificação do alvo para, depois, a administração da terapia”, enfatiza Gomes. 

Desenvolvimento de radiofármacos: do laboratório à clínica

O preparo de um radiofármaco envolve as áreas científicas de Biologia Molecular, Química e Radiofarmácia. Estudos laboratoriais indicam como proteínas, enzimas, receptores ou mudanças no microambiente podem distinguir células ou tecidos normais daqueles alterados em uma doença. Nesse ponto, químicos e farmacêuticos podem desenvolver moléculas sintéticas ou isolar produtos naturais que, em seguida, são “encaminhados aos radioquímicos e radiofarmacêuticos que irão desenvolver métodos de radiomarcação e ensaios in vitro e pré-clínicos para provar o potencial para um novo radiofármaco, o qual deverá passar por pesquisa clínica envolvendo profissionais de áreas médica e da Medicina Nuclear”, aponta Marques.

Não por menos, o aperfeiçoamento da Medicina Nuclear parece impulsionar a Radiofarmácia. Para Fuscaldi, “é a própria Medicina Nuclear que utiliza os produtos gerados pela Radiofarmácia. Dessa forma, Radiofarmácia e Medicina Nuclear caminham juntas”.

As chamadas “células quentes” (equipamentos blindados em aço inoxidável que compõem uma radiofarmácia) garantem um ambiente totalmente controlado e seguro para o fracionamento e a manipulação de radiofármacos. A radiofarmácia das fotografias acima é parte do Serviço de Medicina Nuclear do Hospital de Clínicas da Unicamp, onde atuam profissionais vinculados ao CancerThera e muitos sócios da SBMN.

Aplicações na Oncologia: diagnóstico e terapia

Escolher o radiofármaco certo depende do tipo de doença investigada. Como demonstra Gomes, tumores que consomem glicose em excesso podem ser detectados com o FDG (fluordesoxiglicose), uma glicose marcada com flúor radioativo. Já para o câncer de próstata, o mais indicado é o PSMA (antígeno de membrana específico da próstata) — proteína presente na superfície de células prostáticas, principalmente cancerígenas, observada no exame PET/CT (aparelho de PET acoplado a um de Tomografia Computadorizada).

“Todas as vezes que usamos isótopos emissores de pósitron ou radiação gama, conseguimos obter imagens. Já quando utilizamos emissores de radiação beta ou alfa, por serem partículas, interagem com as estruturas moleculares que compõem as células, destruindo as ligações químicas e a funcionalidade dessas moléculas, levando as células à morte, culminando com o tratamento dos tumores”, compara o 1º secretário da SBMN.

Nesse cenário, surge o conceito de Teranóstico, que integra diagnóstico e tratamento em uma única proposta. Conforme Marques explica, o mesmo alvo molecular pode ser aplicado inicialmente para identificar a doença e, logo, combatê-la com radioisótopos emissores de radiação beta ou alfa. Igualmente, Fuscaldi lembra que essa lógica torna viável analisar cada caso de modo personalizado, ao direcionar terapias apenas aos pacientes que apresentam o alvo e poupar os demais de intervenções desnecessárias.

Cardiologia e Neurologia: além do câncer

Na cardiologia, a Medicina Nuclear avalia a perfusão do miocárdio — fluxo de sangue que irriga o músculo cardíaco e fornece oxigênio e nutrientes essenciais a seu funcionamento —, detectando regiões com risco de infarto. Segundo Gomes, a cintilografia de perfusão miocárdica localiza os segmentos comprometidos, motivo pelo qual orienta a escolha de medicação, stents ou cirurgia e, consequentemente, previne infartos agudos e mortes súbitas.

Radiofármacos como o 99mTc-pirofosfato (molécula de pirofosfato marcada com Tecnécio-99m) também diagnosticam com rapidez e segurança a amiloidose cardíaca, doença em que proteínas anormais se acumulam no coração. “Inicialmente desenvolvido para cintilografia do esqueleto, uma das vantagens do reposicionamento [desse radiofármaco para uso em condições cardíacas] é a segurança de uso nos pacientes e o baixo custo, uma vez que não há mais patente sobre o mesmo”, menciona Marques.

Ele explica, ainda, que, em Neurologia, radiofármacos como 99mTc-ECD (etilcisteinato de dietila marcada com Tecnécio-99m) medem o fluxo sanguíneo cerebral e o metabolismo, revelando tumores ou áreas do cérebro capazes de gerar crises epilépticas. Outros compostos, como 11C-PIB (Pittsburgh Compound B marcado com Carbono-11) e 18F-Florbetabeno (Florbetabeno marcado com Flúor-18), detectam placas associadas ao Alzheimer. Derivados de fármacos neurológicos, como 11C-racloprida (racloprida marcada com Carbono-11), podem medir a ocupação de receptores dopaminérgicos, permitindo ajustes terapêuticos personalizados em Parkinson e no transtorno do déficit de atenção e hiperatividade.

Vantagens em relação a métodos tradicionais

Os exames de Medicina Nuclear detectam alterações funcionais e moleculares, frequentemente antes que mudanças estruturais sejam visíveis em raio-X, ultrassom, tomografia ou ressonância. Seu uso é recomendado apenas diante de suspeita de doença, seja por relatos de sintomas ao médico, por alterações em exames de sangue ou por sinais identificados em outros métodos de imagem, com o objetivo de confirmar possíveis alterações moleculares. “Não se usa a Medicina Nuclear como um método de diagnóstico em check-up”, diz Marques.

A combinação com equipamentos híbridos, que integram SPECT (Tomografia Computadorizada por Emissão de Fóton Único) ou PET, que fornecem informações metabólicas ou funcionais, com a tomografia computadorizada ou a ressonância magnética, as quais fornecem informações anatômicas, permite um diagnóstico anatomofuncional ampliando a precisão do diagnóstico.

Cuidado individualizado: os radiofármacos identificam alvos moleculares específicos dos tumores, permitindo diagnósticos precoces e tratamentos altamente personalizados. Essa precisão reduz intervenções inadequadas e aumenta as chances de sucesso terapêutico.

Personalização do tratamento

A partir das tecnologias usadas em Medicina Nuclear, as terapias são ajustadas ao perfil molecular de cada paciente. Marques cita o câncer de mama como exemplo, no qual o uso de estradiol marcado com flúor radioativo pode demonstrar a expressão de receptores para o hormônio, que é um promotor do câncer, permitindo o uso de  bloqueadores para o receptor, como o tamoxifeno, impedindo a ligação do hormônio e o crescimento do tumor. Na prática, os radiofármacos ajudam a identificar as características da doença, permitindo que o médico selecione tratamentos para atuar diretamente nos fatores que impulsionam seu avanço. O resultado são menos ações inadequadas e maior probabilidade de sucesso terapêutico.

“Assim, consegue-se detectar o tumor precocemente e, devido ao fato de ser uma interação molecular, pode avaliar a questão da especificidade: se esse tumor superexpressa o alvo molecular, é possível realizar o tratamento com radiofármacos naquele paciente, e em outro, não. Essa é a tendência do presente, e a ideia é aprofundar esse conceito no futuro”, projeta Fuscaldi. Tal direcionamento indica que a Medicina Nuclear avança rumo a um cuidado cada vez mais individualizado, com análises detalhadas e procedimentos ajustados aos traços moleculares da doença.

Tendências e futuro da especialidade

O avanço da Medicina Nuclear depende do surgimento de novos radiofármacos e da integração entre pesquisa científica e aplicação clínica. Por suas propriedades radiomoleculares, essas terapias têm potencial para superar o impacto do diagnóstico tradicional, especialmente na Oncologia. “Esse é um vetor de crescimento, e a indústria farmacêutica tem percebido isso e, como nunca antes na história, começou a investir de forma mais consistente nos radiofármacos com finalidade terapêutica”, comenta Gomes.

A interação entre Biologia Molecular, Radiofarmácia e Medicina Nuclear tende a impulsionar a aplicação de descobertas científicas. Essa integração redefine o acompanhamento do organismo à medida que possibilita monitorar processos moleculares, direcionar tratamentos com precisão e adequar intervenções ao perfil biológico do paciente. Cada avanço em laboratório pode resultar em um novo radiofármaco, cada exame detecta sinais precoces, e cada paciente recebe cuidados ajustados a suas necessidades.


Sobre a série “Decodificando a Medicina Nuclear”

No próximo capítulo da série Decodificando a Medicina Nuclear, apresentamos como a Medicina Nuclear utiliza radiofármacos para mapear o funcionamento bioquímico do corpo em tempo real por meio de exames de PET/CT, cintilografia e SPECT/CT e guiar terapias mais precisas. Diferente da radiologia tradicional, essa tecnologia vai além da anatomia e rastreia a atividade celular em nível molecular, otimizando diagnósticos e garantindo tratamentos altamente precisos e personalizados para doenças como o câncer.


Texto: Romulo Santana Osthues e Vinícius Brito | Imagens: Romulo Santana Osthues, banco de fotos e/ou geradas por IA

Utilizamos cookies para aprimorar sua experiência no website.
CancerThera
Arraste!