Tecnologias de imagem com base em radiofármacos otimizam o diagnóstico e personalizam o tratamento de doenças, como o câncer.

Para a medicina de precisão, mapear a anatomia humana já não basta; o principal desafio é observar a vida em nível molecular. Se exames tradicionais de imagem “fotografam” a estrutura dos órgãos, a Medicina Nuclear “ilumina” a sua engrenagem bioquímica em tempo real. O conceito fundamental aqui é o rastreamento: por onde vai uma molécula de glicose, de um antibiótico ou de um hormônio quando ela entra no organismo?
“A radiação utilizada em nossa área é a ferramenta que nos permite enxergar essas moléculas, gerando imagens da fisiologia e da fisiopatologia de diversas doenças”, resume o Dr. Celso Dario Ramos, médico nuclear, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador principal no CEPID CancerThera.
E como enxergar essas moléculas se traduz em diagnósticos precisos? Para responder, além de Ramos, consultamos a Dra. Bárbara Juarez Amorim, médica nuclear, coordenadora do Serviço de Medicina Nuclear da Unicamp e pesquisadora associada ao CancerThera; e o Dr. Paulo Almeida, médico nuclear, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear e Imagem Molecular (SBMN).
PET/CT
Equipamento híbrido que combina a Tomografia por Emissão de Pósitrons (PET) com a Tomografia Computadorizada (CT), o PET/CT realiza uma análise detalhada, não invasiva e tridimensional do interior do corpo. Enquanto o PET avalia o metabolismo e o funcionamento dos tecidos a partir da administração de radiofármacos — cujo funcionamento explicamos em detalhes na segunda reportagem desta série —, como a molécula de glicose marcada com o radioisótopo Flúor-18, o CT evidencia a estrutura anatômica com alta resolução por meio de raios X. Juntas, essas tecnologias identificam alterações metabólicas — a exemplo do alto consumo de glicose por tumores — e conseguem localizá-las precisamente na anatomia do paciente.
Ao diferenciar os exames nucleares da radiologia tradicional, Celso Ramos utiliza uma analogia didática sobre a origem da imagem: enquanto em um raio X convencional a radiação atravessa o paciente vinda de uma fonte externa, na Medicina Nuclear, o processo é inverso, pois o paciente recebe o radiofármaco internamente, principalmente, por via endovenosa. Tal característica permite rastrear exatamente onde a substância está se acumulando no organismo, identificando tecidos doentes, por exemplo.
Ramos ressalta a importância do PET/CT para avaliar a eficácia de tratamentos em tempo real, como os quimioterápicos, algo que exames puramente anatômicos demoram a mostrar. O médico exemplifica com o tratamento de linfomas (um tipo de câncer que se origina no sistema linfático): “se essa quimioterapia foi eficiente o suficiente para agredir fortemente aquela neoplasia, após um ou dois ciclos, já vai ser demonstrado pelo exame de PET que o consumo de glicose despencou”, o que é um indicador de diminuição da atividade tumoral. Isso torna possível personalizar a terapia, diminuindo a toxicidade em pacientes que respondem bem e ajustando a abordagem para aqueles com resposta insuficiente.
As tecnologias contemporâneas aplicadas a esse equipamento incorporam recursos avançados. A Inteligência Artificial (IA) tem sido integrada para agilizar e otimizar o processamento e a quantificação das imagens, elevando sua qualidade. “Usando IA, mesmo quando a imagem apresenta poucos pontos de captação do radiofármaco devido à menor dose de radiação, o sistema consegue aprimorar o aspecto visual e facilitar a elaboração do laudo”, afirma Ramos.
Outro benefício é a automação: a IA identifica e delimita automaticamente áreas normais e anormais, efetuando a quantificação da carga tumoral em segundos, tarefa que antes era feita manualmente pelos médicos.
Já a incorporação de acessórios para biópsia garante que o procedimento seja feito no exato local em que o exame PET mostrou uma alteração. Assim, o médico que conduz a biópsia insere a agulha no ponto de maior captação do radiofármaco, acompanhando tudo em tempo real por monitores dentro da sala de exames. Esse recurso é crucial para distinguir se uma lesão é câncer ou algo benigno, como uma inflamação, o que nem sempre é evidente apenas pela imagem do PET.
Diferente do exame de PET convencional, nos quais as imagens são feitas cerca de uma hora após a injeção do radiofármaco, o atual “PET dinâmico” captura as imagens de modo contínuo. O paciente é monitorado desde o momento da injeção, quando se observa o radiofármaco chegando à corrente sanguínea e se distribuindo pelos tecidos. Essa técnica gera curvas que medem a velocidade com que as células absorvem a substância injetada, fornecendo dados valiosos, especialmente para a pesquisa científica.
Recentemente, com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), o CancerThera atualizou um dos equipamentos de seu uso com essa tecnologia, que, além de beneficiar os pacientes do Hospital de Clínicas da Unicamp, é uma peça-chave para os estudos clínicos conduzidos no Centro de Pesquisa.

Cintilografia e SPECT/CT
A cintilografia fornece imagens funcionais do corpo humano, possibilitando a avaliação do funcionamento e do metabolismo de tecidos e órgãos. No exame, o paciente recebe um radiofármaco. O radioisótopo usado na marcação do radiofármaco (o Tecnécio-99m é o mais comum) emite radiação gama. Essa radiação sai do corpo do paciente e é captada por um equipamento chamado “câmara de cintilação”, que produz a imagem para análise posterior.
Hoje, a cintilografia é realizada em equipamentos híbridos conhecidos como Tomografia Computadorizada por Emissão de Fóton Único acoplado a uma Tomografia Computadorizada (SPECT/CT). A câmara de cintilação registra a radiação gama emitida pelos radiofármacos no corpo do paciente, produzindo uma imagem que reflete o funcionamento dos órgãos. Simultaneamente, a CT utiliza raios X para oferecer detalhes precisos da anatomia, identificando com exatidão a localização das alterações funcionais detectadas. O resultado traz imagens fundidas, interpretadas pelos médicos nucleares, responsáveis pelos laudos.
Recentemente, a tecnologia de cintilografia evoluiu com detectores de CZT (Cádmio, Zinco e Telúrio), cujas imagens têm resolução espacial de cerca de 2,5 mm. Uma inovação marcante no CancerThera é a chegada recente do SPECT/CT CZT. Conforme Bárbara Amorim, o equipamento tem detectores CZT de resolução e rapidez sem precedentes: “Com o aparelho antigo que utilizávamos em nosso serviço, levávamos mais de uma hora para obter uma imagem de corpo inteiro com SPECT/CT. Com a tecnologia CZT, a imagem é gerada em torno de 20 minutos”.
A pesquisadora explica que esse tipo de aparelho é fundamental no modelo Teranóstico — abordagem que combina diagnóstico e terapia com radiofármacos consecutivos, tema do próximo capítulo — para o planejamento do tratamento oncológico. Ele realiza cálculos de dosimetria interna, especialmente quando o radiofármaco da fase terapêutica não aparece no exame de PET, assegurando que a radiação seja distribuída com precisão, atingindo exclusivamente as células tumorais.


Quando usar PET/CT e SPECT/CT
A principal diferença entre as duas tecnologias está no tipo de radiação emitida.
No exame de PET/CT, são empregados radioisótopos emissores de pósitrons (como o F-18 que é ligado a uma molécula análoga à glicose, tornando-a radioativa), que geram imagens de alta sensibilidade e de corpo inteiro.
Já na realização de SPECT/CT, emprega-se radiação gama (como a emitida pelo Tecnécio-99m, mencionado anteriormente).


Para fins de comparação, se o corpo humano fosse uma fábrica:
- Um exame anatômico (CT) seria como tirar uma foto com flash da fábrica em operação à noite: você veria as máquinas e as paredes (imagem à esquerda).
- Os exames funcionais (PET ou SPECT) em Medicina Nuclear seriam como filmar a fábrica apenas pelas luzes das máquinas ligadas: você não só percebe onde elas estão, mas também distingue quais estão trabalhando demais (como os tumores) daquelas que permanecem inativas.
No modelo Teranóstico, ambos são muito úteis: “muitas vezes, para realizar a imagem diagnóstica do paciente, utiliza-se o PET/CT; em seguida, o SPECT/CT é utilizado para os cálculos do planejamento terapêutico”, acrescenta Amorim.
Doses de radiação mínimas e seguras
Tanto na rotina clínica quanto na pesquisa científica, sempre que um procedimento utiliza radiação, o estigma e a desinformação sobre as tecnologias nucleares podem provocar temor. Em Medicina Nuclear, a radiação aplicada não causa danos ao paciente. Paulo Almeida esclarece que as doses são calculadas para serem mínimas e seguras, muitas vezes inferiores às de exames odontológicos de rotina. “Você pode ir ao dentista e receber muito mais radiação das radiografias feitas de rotina do que em um exame de Medicina Nuclear”, afirma.
A segurança das doses diagnósticas é tão elevada que a especialidade se mostra adequada mesmo na Pediatria, inclusive para recém-nascidos. O médico observa, nesse contexto, o uso frequente de cintilografias para investigar malformações renais e infecções urinárias em bebês, “justamente porque a exposição à radiação é mínima”.
Um diferencial relevante em relação aos exames de imagem tradicionais, como a tomografia com contraste, é a ausência de risco de choque anafilático ou reações alérgicas aos radiofármacos. Almeida explica que a quantidade química injetada é ínfima, detectável apenas pela emissão radioativa, tornando desnecessário questionar o histórico alérgico do paciente. “É irrelevante, porque toda substância que injetamos no paciente é medida em microgramas ou picogramas, insuficiente para provocar alergia”, diz.
Outra dúvida frequente nos consultórios é sobre o risco de o paciente transmitir radiação a terceiros após a administração do radiofármaco. O médico pontua que, nos exames diagnósticos, não há necessidade de isolamento, pois a radiação empregada apresenta baixo potencial de dano biológico e os radioisótopos usados, como o Tecnécio-99m na cintilografia, possuem meia-vida curta, eliminando-se do corpo em poucas horas.
“O paciente pode fazer um exame de Medicina Nuclear, sair da clínica e pegar um ônibus lotado para casa, sem risco de irradiar ninguém de forma perigosa”, garante Almeida, ressaltando que cuidados específicos de distanciamento são indicados apenas em terapias com radiofármacos de altas doses, e não em exames diagnósticos de rotina.

Acesso e impacto no SUS
Além da oferta em serviços privados de Medicina Nuclear, os exames de PET/CT, cintilografia e SPECT/CT podem ser realizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), sobretudo em centros hospitalares universitários e de referência, como o Hospital de Clínicas da Unicamp. As condições e as indicações variam de acordo com a tecnologia.
Bárbara Amorim destaca que a manutenção e a atualização de tecnologias de ponta em hospitais públicos são viabilizadas por uma combinação de verbas de pesquisa oferecidas por agências de fomento, recursos próprios das universidades e emendas parlamentares. Sem os investimentos em pesquisa, o acesso a essas tecnologias por pacientes do setor público seria significativamente limitado.
Os equipamentos de PET/CT com biópsia guiada e SPECT/CT CZT utilizados pelo CancerThera são multiusuário, ou seja, são abertos ao uso de toda a comunidade científica do estado de São Paulo mediante agendamento prévio.
Sobre a série “Decodificando a Medicina Nuclear”
No próximo capítulo da série Decodificando a Medicina Nuclear, mostraremos como a especialidade auxilia nos cuidados de pacientes oncológicos por meio do Teranóstico — combinação de avaliação do quadro (diagnóstico) e intervenção clínica (terapia) no mesmo alvo molecular — e como pesquisas inovadoras são conduzidas no Brasil para diversificar os tipos de tumores abordados e expandir o acesso da população à tecnologia em saúde.
Texto: Romulo Santana Osthues e Vinícius Brito | Imagens: Romulo Santana Osthues, banco de fotos e/ou geradas por IA








