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Diagnóstico e tratamento do câncer integrados: o Teranóstico como modelo

Pesquisadores explicam como a integração entre diagnóstico e terapia trata “apenas o que se vê”, promovendo uma abordagem menos invasiva em casos oncológicos complexos.

Segundo projeções da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc), o número de casos de câncer e as mortes pela doença na América Latina e no Caribe podem crescer 83% e 98%, respectivamente, até 2050. No cenário global, a estimativa é de 35 milhões de novos casos. A agência projeta ainda que as mortes anuais no mundo podem chegar a 18,5 milhões.

O Teranóstico ganha a atenção de pesquisadores e médicos como uma abordagem promissora nos cuidados com pacientes oncológicos ao integrar o diagnóstico preciso e a terapia personalizada. Baseado na premissa clínica de tratar “apenas o que se vê”, o modelo utiliza radiofármacos capazes de rastrear molecularmente o tumor e, em uma etapa seguinte, entregar a radiação terapêutica exclusivamente nas células doentes.

A estratégia de alta precisão pode reduzir a toxicidade nos tecidos saudáveis: oferece a dose adequada, no momento exato, para um paciente específico. O Teranóstico representa, atualmente, uma potencial via de promoção de ganhos de sobrevida e qualidade de vida para pacientes cujas opções terapêuticas convencionais já se esgotaram. 

Neste capítulo da série Decodificando a Medicina Nuclear, entrevistamos pesquisadores atuantes no Centro de Inovação Teranóstica em Câncer (CancerThera), apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) como um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID). 

Foram entrevistados o Dr. Carmino Antonio de Souza, médico onco-hematologista e professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/Unicamp); a Dra. Elba Etchebehere, médica nuclear, professora da FCM/Unicamp e Presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear (SBMN); e o Dr. Victor Marcelo Deflon, químico e professor do Instituto de Química de São Carlos da Universidade de São Paulo (IQSC/USP). Todos são pesquisadores principais no CEPID CancerThera.

O que é e como funciona o Teranóstico?

O termo é um neologismo que combina terapia e diagnóstico e se refere à abordagem oncológica que une distintos procedimentos em duas etapas consecutivas: o mapeamento da distribuição tumoral pelo corpo (fase diagnóstica); seguida da destruição das células tumorais identificadas nesse mapeamento (fase terapêutica).

Em ambos os momentos, aplicam-se radiofármacos formados por um mesmo tipo de molécula carreadora, porém marcada por radioisótopos distintos em cada ocasião. A molécula carreadora é o componente biológico do radiofármaco, responsável por identificar e se ligar às células tumorais que se pretende destruir. Tal procedimento de Medicina Nuclear emprega moléculas carreadoras que o corpo reconhece como dele e metaboliza. Portanto, não há reações alérgicas.

O infográfico representa um radiofármaco, que é composto por um radioisótopo (que emite radiação) unido por um ligante a uma molécula carreadora. Essa molécula funciona como um guia que busca e se conecta especificamente ao alvo da célula tumoral para diagnóstico ou tratamento. No caso do Teranóstico, entre a etapa diagnóstica e a terapêutica, o radioisótopo é o elemento que é alterado.

O exemplo mais típico é o tratamento do câncer de tireóide com iodo radioativo. Pacientes alérgicos a contraste iodado que requerem tratamento com iodo radioativo para câncer de tireoide frequentemente têm medo de tratar com iodo radioativo. “No entanto, não existe risco nenhum, pois a quantidade (massa efetiva) de iodo é ínfima. É como dizer que esse paciente correria risco de alergia a sal de cozinha. Obviamente, isso não existe, pois o iodo do sal iodado entra na célula e, devido à quantidade ínfima, o organismo reconhece como dele, e não produz anticorpos. Com o iodo radioativo, ocorre exatamente o mesmo fenômeno”, explica Etchebehere. 

Na fase diagnóstica, após a administração do radiofármaco ao paciente, o funcionamento baseia-se na identificação de moléculas específicas que se acumulam em determinados tumores, auxiliando no rastreamento de células tumorais. Para mapear a distribuição dessas células, o paciente recebe um radiofármaco composto por uma molécula carreadora marcada com um radioisótopo de baixa emissão de energia — como o Gálio-68, emissor de pósitrons, ou o Tecnécio-99m, que emite radiação gama — capaz de gerar imagens do corpo e de seu funcionamento, permitindo localizar o tumor e possíveis metástases. Para detectar a distribuição do radiofármaco, utilizam-se aparelhos como PET/CT (Tomografia por Emissão de Pósitrons combinada com Tomografia Computadorizada) e SPECT/CT (Tomografia Computadorizada por Emissão de Fóton Único).

Quando o médico nuclear determina com precisão onde o radiofármaco se acumulou, indicando a distribuição das células tumorais, ele pode decidir pela administração da dose terapêutica: o mesmo tipo de molécula carreadora da fase diagnóstica — agora com afinidade comprovada pelo tecido doente — recebe um radioisótopo que emite radiação de alta energia (como o Actínio-225 e o Lutécio-177, emissores de radiação alfa e beta, respectivamente). Durante a fase terapêutica do modelo Teranóstico, o paciente recebe esse radiofármaco, cuja radiação destrói localmente as células tumorais.

Para Elba Etchebehere, o grande diferencial do uso de radiofármacos com a finalidade teranóstica é a capacidade de não se agir no escuro: “nós sempre tratamos o que vemos, nunca tratamos às cegas”. Ela completa: “damos a dose certa, na hora certa, para o paciente certo. É diferente de um modelo estatístico; nós tratamos o que está adequado para aquele indivíduo, baseando-se na carga tumoral real detectada pelas imagens”. 

Em contraste com a quimioterapia tradicional, que atinge células saudáveis e causa efeitos colaterais muitas vezes severos, os radiofármacos empregados em Medicina Nuclear, por sua alta seletividade, atuam “dentro do tumor” sem irradiar estruturas vizinhas saudáveis. A pesquisadora ressalta que eles têm “toxicidade baixíssima, virtualmente zero”, com doses ínfimas de radiação aplicadas.

“São radiações que não ultrapassam, por exemplo, uma folha de papel”, compara Carmino de Souza. O pesquisador explica que o Teranóstico é um modelo inovador no enfrentamento do câncer e que representa o ápice da personalização em Medicina. Por atingir o alvo de maneira precisa em cada paciente, torna o tratamento mais eficaz e reduz custos para o sistema de saúde.

Avanços no Brasil e tipos de tumores abordados

Na fotografia, biomédicas preparam um paciente para um exame de Medicina Nuclear. Antes de entrar no aparelho de PET/CT, o paciente recebeu um radiofármaco específico de modo que o aparelho possa mapear o corpo, indicando seu funcionamento e/ou a presença de alguma doença.

Embora pesquisas para inovação em radiofármacos teranósticos tenham se intensificado nos últimos anos no Brasil, como no caso das que estão em desenvolvimento no CancerThera, o conceito já é aplicado há mais de 80 anos no tratamento do câncer de tireoide, por meio do radioisótopo Iodo-131. Para Carmino de Souza, atualmente surge “uma nova avenida dentro da pesquisa e da prática médica”. Ele afirma que, mesmo que o uso do iodo radioativo para tireoide seja o “estado da arte até hoje”, vivemos um “boom de interesse” impulsionado pelo avanço do conhecimento molecular.

Tanto avanço ampliou o alcance do Teranóstico para outros tipos de câncer, incluindo o de próstata, por meio da molécula Antígeno Específico da Membrana Prostática (PSMA), já consolidada para casos metastáticos no País. Além da próstata e da tireoide, o Teranóstico tem registrado bons resultados em tumores neuroendócrinos.

Paralelamente, estudos recentes buscam aplicar o modelo em casos complexos, como:

  • Glioblastoma — tumor cerebral agressivo e de difícil tratamento;
  • Melanoma — tumor de pele severo que demonstra afinidade por marcadores específicos, como o PSMA, especialmente em casos resistentes a imunobiológicos;
  • Mieloma múltiplo — câncer hematológico da medula óssea caracterizado por uma grande heterogeneidade, no qual a avidez pelo tratamento varia entre os pacientes;
  • E mielofibrose — doença hematológica complexa que afeta a medula óssea e possui particularidades que exigem o desenvolvimento de novas moléculas carreadoras.

Os estudos conduzidos pelo CancerThera têm como objetivo expandir o modelo Teranóstico para esses casos complexos. Entre os esforços dos pesquisadores do centro está a identificação de novas moléculas e alvos para tumores com poucas opções terapêuticas ou alta resistência aos tratamentos convencionais. Souza comenta que se trata de um trabalho contínuo e complexo, descrevendo o processo de montagem dessas ferramentas como o do brinquedo “Lego”, em que cientistas combinam um radioisótopo a uma molécula carreadora para avaliar eficácia e toxicidade até que o produto esteja pronto para uso em humanos.

O papel do CEPID CancerThera

Infográfico ilustra os diferentes braços de pesquisa translacional desenvolvida no CancerThera: síntese de moléculas e ligantes (básico), testes em células e animais (pré-clínico) e aplicação em pacientes (clínico).

Na vanguarda dessa tecnologia está o CancerThera, sediado no Centro de Hematologia e Hemoterapia (Hemocentro) da Unicamp e vinculado à Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e ao Instituto de Química de São Carlos da USP. O centro integra conhecimentos da Medicina a áreas como Química, Física, Biologia, Radioquímica e Radiofarmácia em um fluxo de Pesquisa Translacional que vai da síntese de novas moléculas (pesquisa básica), passa pelos testes de segurança e eficácia em células e animais (pesquisa pré-clínica) e chega à aplicação em humanos (pesquisa clínica), levando as inovações do laboratório à prática assistencial.

O desenvolvimento de novos radiofármacos para aplicação clínica no modelo Teranóstico reflete, portanto, essa natureza inter e multidisciplinar das investigações no CancerThera. É um trabalho coletivo, de integração e diálogo entre muitos grupos de pesquisa, que tem origem na bancada dos laboratórios. 

“Os especialistas em Química dedicam-se ao estudo das propriedades das moléculas e dos radioisótopos e à preparação de compostos específicos para promover a ligação entre eles. Na Biologia, são conduzidos estudos de radiomarcação, estabilidade e ensaios in vitro e in vivo. A Física contribui para o aprimoramento do processamento e da qualidade das imagens geradas, enquanto a Farmácia trabalha na otimização da preparação dos radiofármacos”, pontua Victor Deflon.

Mesmo ao declarar otimismo permanente, Carmino de Souza adota cautela ao abordar o futuro das pesquisas no CancerThera e define o processo quase como “de tentativa e erro”. O desafio dos pesquisadores, acrescenta, consiste em encontrar combinações ideais entre radioisótopos e alvos tumorais, pois um único tipo de radiofármaco “não funcionará para todos os tumores, nem para todos os pacientes”.

Ele observa que o trabalho conduzido atualmente no centro de pesquisa é “100% acadêmico”, com todos os pacientes atendidos por meio de protocolos aprovados por comitês de ética. Acrescenta que a incorporação de tecnologias como as do Teranóstico aos sistemas de saúde — públicos ou privados — requer paciência, pois “a ciência tem o seu tempo”.

A atuação do CancerThera vai além da pesquisa e da inovação em cuidados oncológicos. O centro investe na formação de profissionais qualificados e na disseminação de conhecimento com base em evidências científicas, com foco no enfrentamento da desinformação em saúde — inclusive sobre o uso da radiação na Medicina Nuclear — e na apresentação da tecnologia nuclear como recurso terapêutico seguro e benéfico.

Entre principais, associados e bolsistas, a equipe do CancerThera é formada por mais de 80 pesquisadores. Conheça toda a equipe neste link.

Sobre a série “Decodificando a Medicina Nuclear”

No próximo capítulo da série Decodificando a Medicina Nuclear, apresentaremos como o estigma histórico e a desinformação sobre o uso da tecnologia nuclear podem criar medos infundados. Especialistas revelam que o enfrentamento a esse preconceito — por meio de uma comunicação científica transparente e da educação em saúde — é urgente não apenas para salvar vidas, mas também para destravar a soberania tecnológica do Brasil na produção de radiofármacos.


Texto: Romulo Santana Osthues e Vinícius Brito | Imagens: Romulo Santana Osthues, banco de fotos e/ou geradas por IA 

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