Informações falsas alimentam receios infundados, e especialistas defendem maior diálogo com a população como estratégia para reduzir inseguranças e ampliar a compreensão pública.

Segundo projeções da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (Iarc), vinculada à Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de casos de câncer e as mortes pela doença na América Latina e no Caribe podem crescer 83% e 98%, respectivamente, até 2050. No cenário global, a estimativa é de 35 milhões de novos casos, com impacto mais intenso em países de baixa e média rendas. A agência projeta ainda que as mortes anuais no mundo podem chegar a 18,5 milhões, o que evidencia a necessidade de fortalecer políticas de prevenção.
No entanto, paralelamente aos avanços científicos no enfrentamento da doença, cresce a desinformação sobre métodos diagnósticos e terapêuticos, sobretudo no ambiente digital. Conteúdos enganosos — que vão de “sucos preventivos milagrosos” a teorias conspiratórias que alimentam o medo em relação às tecnologias nucleares — tornaram-se um obstáculo e podem influenciar como as pessoas encaram o câncer.
Para abordar os desafios comunicacionais e combater a desinformação no campo da tecnologia nuclear aplicada à Medicina, entrevistamos o Me. John Milne Albuquerque Forman, geólogo, diretor da J. Forman Consultoria e ex-presidente da Associação Brasileira de Energia Nuclear (ABEN); o Dr. Vitor Fernandes de Almeida, engenheiro químico, atualmente cursando seu segundo mestrado na Universidade de Tsinghua (China) e autor da tese intitulada “Utilização de recursos multimídia na divulgação científica no ensino da tecnologia nuclear no ambiente escolar”; o Dr. Celso Dario Ramos, médico nuclear, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisador principal no CEPID CancerThera; e o Dr. Paulo Almeida, médico nuclear, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear e Imagem Molecular (SBMN).
O estigma histórico
As tecnologias nucleares carregam uma marca histórica negativa, que John Forman chama de “pecado original”. Ele explica que o mundo conheceu o conceito de “nuclear” por meio da bomba atômica, em 1945, o que consolidou a percepção de que “esse negócio de nuclear explode, mata, é maligno”. Para ele, esse imaginário, alimentado por décadas de produções cinematográficas e coberturas jornalísticas com enfoque negativo, criou uma barreira de desconfiança entre a sociedade e as aplicações nucleares.
Outro ponto mencionado é a produção e a circulação de notícias falsas sobre o tema e o modo como elas contribuem para a desinformação na internet. “Nós vivemos a era das narrativas, criadas e difundidas por pequenos grupos de influência, que têm seguidores. O problema das narrativas é que, dadas as condições atuais do mundo, elas são tomadas como verdades”, comenta. “Então, se a narrativa não é consequente, se ela não tem aderência com a realidade, as pessoas acham que o problema não é da narrativa, e sim da realidade. Isso é terrível, porque se torna uma realidade alterada”, acrescenta Forman.
Na avaliação do pesquisador, parte da própria comunidade do setor nuclear contribui para a dificuldade de a sociedade acessar informações confiáveis, ao adotar uma postura distante e uma comunicação defensiva, pouco ativa na transformação desse imaginário. Ele exemplifica: “se tem um cara que diz que eu tenho que me proteger da radiação, implicitamente, isso tem perigo”. Para ele, ao tratar dos termos da área, a ênfase deveria recair nos “estudos de utilização da radiação” em favor da vida, e não na apresentação da tecnologia como algo ameaçador, o que acaba por alimentar o preconceito.
“Sem dúvida nenhuma, o nome ‘nuclear’ carrega um estigma. Quando me perguntam qual é minha especialidade, eu já sei que eu vou ter que fazer um longo discurso para desfazer a relação entre o nome e as bombas e guerras”, diz Paulo Almeida. Nesse sentido, para contornar a associação negativa, o médico nuclear conta que já existem discussões no setor sobre a adoção de um termo que sofra menos com o estigma e reflita a essência da especialidade, que é o de “imagem molecular” — já utilizado nos Estados Unidos e na Europa. A mudança de nome seria, portanto, “mais fidedigna e mais palatável”, acredita.
Já Vitor Almeida identifica um abismo que separa a academia da sociedade no Brasil. O engenheiro químico destaca que essa distância faz com que o senso comum seja formado por informações imprecisas, pois “o público brasileiro raramente consulta fontes científicas como referência principal de informação, e isso cria um muro gigantesco, fazendo com que a fonte de conhecimento seja totalmente informal”. Ele ressalta que a informalidade, muitas vezes acentuada por um jornalismo que prioriza o sensacionalismo em detrimento dos avanços terapêuticos, acaba por cristalizar preconceitos históricos que vinculam o átomo apenas a cenários de guerra e destruição.
Do cosmos ao consultório
Para afastar a ideia de perigo, os especialistas entrevistados enfatizam que a radiação é um fenômeno natural, embora pouco conhecido pela maioria das pessoas. John Forman aponta que nosso planeta recebe radiação proveniente do cosmos 24 horas por dia. “Quando você faz uma viagem de avião, você sobe pela atmosfera e recebe mais radiação do que quando está aqui embaixo. Todos nós recebemos essa radiação e pouquíssima gente sabe disso. Ninguém deixa de viajar de avião porque vai ser exposto a uma radiação mais elevada”, argumenta.

Nos procedimentos de Medicina Nuclear, a radiação é administrada com precisão extrema. Celso Ramos equipara a dose aplicada a uma fagulha: “em relação a um incêndio em uma floresta, o que nós aplicamos não se equipara nem ao fogo que produz um palito de fósforo. A Medicina Nuclear é muito segura; não existem acidentes graves em nossa área”. Esses materiais radioativos têm meia-vida curta, o que faz com que desapareçam do corpo em poucas horas. Diferentemente da radiologia convencional, reforça Paulo Almeida, as salas dedicadas exclusivamente à Medicina Nuclear não precisam de blindagem pesada nas paredes, pois a radiação provém do paciente e apresenta baixa intensidade.
Sobre os efeitos biológicos da radiação, ele assegura que as doses diagnósticas são muito baixas. “Ao usar a radiação, não chegamos nem perto dessas doses que provocariam um aumento de qualquer doença na população”, afirma. A segurança dos exames de Medicina Nuclear é tamanha que eles são indicados até para pacientes mais vulneráveis. O médico exemplifica com a rotina clínica para investigar malformações renais: “aplicamos muito em recém-nascidos e em crianças, justamente porque a exposição à radiação é mínima”.
Impacto da desinformação na autonomia nacional
A desinformação impacta o paciente individualmente e desencadeia um efeito cascata que compromete a autonomia tecnológica do Brasil. Sem a confiança da população, projetos vitais encontram dificuldade para obter recursos e apoio político. “Há uma ignorância por parte da comunidade científica de não entender a importância que a aceitação pública tem na questão do desenvolvimento científico, da tecnologia nuclear e o avanço dela no País”, alerta Vitor Almeida.
O Brasil possui a sétima maior reserva de urânio do mundo, mas importa a maior parte dos radioisótopos médicos. O Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), principal produtor nacional, enfrenta instabilidades orçamentárias e regras da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que, segundo Forman, tratam os radiofármacos como medicamentos comuns de maneira excessivamente restritiva, paralisando algumas produções.
Na perspectiva de Forman, o excesso de regulamentação, muitas vezes derivado da ideia de que a população precisa de proteção contra algo perigoso, torna a execução de projetos no setor muito complexa. Ele acrescenta que o medo da radiação também gera gargalos logísticos: empresas aéreas frequentemente se recusam a transportar esses materiais, que têm meia-vida curta. O resultado se reflete no acesso dos pacientes ao tratamento.
Uma das esperanças para a autossuficiência está no Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), projeto nacional em parceria com a Argentina, que busca garantir a produção estável de insumos médicos. Contudo, como lembra Forman, o setor padece da ausência de uma política de Estado contínua, com recursos que “ora têm, ora não têm”, devido a contingenciamentos orçamentários.
A área é regulada pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), da qual o IPEN faz parte, responsável pela pesquisa e pela normatização. Recentemente, foi criada a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) para separar as funções de fomento e regulação, com sua implementação plena ainda em andamento. Internacionalmente, o Brasil segue as salvaguardas da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), mantendo o uso pacífico da tecnologia.
Educação em saúde e divulgação científica

Por outro lado, enfrentar a desinformação em saúde depende da educação. Em artigo de opinião publicado no portal Hora Campinas, pesquisadores do CancerThera defendem uma “responsabilidade coletiva”, que vai da remoção de paywalls (barreiras de pagamento) em matérias jornalísticas sobre saúde em portais de notícias até a formação de jornalistas especializados no tema em diferentes regiões do Brasil, considerando as especificidades de saúde pública de cada um dos seus diversos territórios e comunidades.
Uma pesquisa liderada por Vitor Almeida no CDTN demonstrou que recursos multimídia no Ensino Médio podem contribuir para reverter esse quadro: após as aulas sobre o assunto ministradas para 228 alunos, 97% relataram evolução no conhecimento sobre tecnologias nucleares, enquanto 86% passaram a adotar uma postura mais positiva em relação à ciência nuclear. Além disso, 84% dos estudantes passaram a aceitar mais as aplicações da radiação, e o reconhecimento da energia nuclear como fonte limpa subiu de 43,84% para 84,88%.
O temor da radiação é, essencialmente, consequência da falta de educação científica, sustenta Almeida. “O medo está muito associado ao desconhecimento. Então, quando é apresentado o conhecimento às pessoas, elas ganham senso crítico para avaliar de fato se aquilo é danoso para ela ou se é algo que vai trazer algum benefício”, comenta.




Como melhorar a comunicação entre ciência e sociedade?

Nos estudos de Vitor Almeida e equipe no CDTN, a adaptação da linguagem é vista como um desafio de “tradução” técnica, em que o especialista torna o conteúdo científico acessível para que a sociedade não fique afastada de tecnologias de ponta por falhas na comunicação. Confira algumas recomendações do engenheiro químico:
Não seja simplista: A linguagem deve ser adaptada, simples e fácil de entender, mas sem perder a profundidade. O simplismo pode omitir detalhes cruciais. A adaptação busca formas de transmitir a complexidade sem afastar o público.
Use teorias de aprendizagem combinadas a ferramentas multimídia: Elas ajudam a reduzir a sobrecarga cognitiva do aluno, favorecem a internalização natural do conhecimento e promovem o engajamento prazeroso com o conteúdo.
Seja transparente com seu interlocutor: Não se deve esconder a parte difícil, negativa ou polêmica do assunto tratado. Apresente claramente os pontos positivos e os riscos envolvidos para desenvolver o senso crítico do público.
Torne o conhecimento palpável: Conecte a ciência, muitas vezes vista como “de outro planeta”, ao cotidiano das pessoas. Informação adaptada com sucesso gera confiabilidade e segurança, e não medo.
Sobre a série “Decodificando a Medicina Nuclear”
Este é o último capítulo da série Decodificando a Medicina Nuclear, uma parceria entre o CEPID CancerThera e a SBMN, que traz uma jornada informativa para desmistificar a tecnologia nuclear na saúde e mostrar seu impacto em diagnósticos e tratamentos. Ao longo da série, exploramos os fundamentos da Medicina Nuclear, o desenvolvimento e funcionamento dos radiofármacos, recursos diagnósticos como PET/CT, cintilografia e SPECT/CT, avanços no tratamento do câncer com o Teranóstico e, por fim, o debate sobre a desinformação em torno do uso da tecnologia nuclear na saúde.
Texto: Romulo Santana Osthues e Vinícius Brito | Imagens: Romulo Santana Osthues, banco de fotos e/ou geradas por IA








