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O que é Medicina Nuclear e para que ela serve?

Especialidade conecta ciência, tecnologia e sensibilidade clínica para inovar diagnósticos e tratamentos.

A energia do átomo a serviço da saúde: a tecnologia nuclear é essencial para diagnósticos precisos e tratamentos avançados, salvando vidas com a máxima precisão médica.

Você sabia que a Medicina Nuclear é uma das áreas mais inovadoras da medicina moderna? Surgida a partir da aplicação de descobertas sobre radioatividade à saúde, ela abriu novos caminhos para investigação, monitoramento e intervenção em doenças. O que antes parecia restrito a laboratórios de Física, rapidamente ganhou espaço em hospitais e clínicas, transformando-se em esperança para milhões de pacientes.

É exatamente por esse motivo que iniciamos a série de cinco reportagens Decodificando a Medicina Nuclear, dedicada a explorar os vários aspectos da disciplina, suas tecnologias e aplicações no cuidado à população. Além disso, queremos oferecer informações confiáveis e baseadas em evidências científicas, enfrentando um grande problema que há atualmente no ambiente digital: a desinformação. 

Estão em circulação na internet informações incorretas, imprecisas ou propositalmente falsas sobre o câncer e as ferramentas usadas na área da saúde para cuidar de pacientes oncológicos — como é o caso da tecnologia nuclear aplicada em radiofármacos —, tornando-se um grande desafio para a sociedade.

Entre 2018 e 2019, por exemplo, pesquisadores dos Estados Unidos e do Canadá analisaram 200 conteúdos de redes sociais com alto engajamento sobre quatro tipos de tumores (mama, próstata, colorretal e pulmão). Mais de 30% apresentavam informações incorretas, e mais de 70% dessas tinham potencial de causar danos à saúde.

Neste primeiro capítulo, apresentamos um panorama geral da Medicina Nuclear com a participação da Dra. Elba Etchebehere, médica nuclear, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/Unicamp), pesquisadora principal no CEPID CancerThera e presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Nuclear e Imagem Molecular (SBMN), e do Dr. Josilto Oliveira de Aquino, engenheiro nuclear, servidor da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e presidente da Sociedade Brasileira de Proteção Radiológica (SBPR), que compartilham suas perspectivas sobre o tema.

Visão a partir da sala de controle durante a realização de um exame de diagnóstico por imagem. Em primeiro plano, os monitores exibem os dados e cortes anatômicos (como imagens do cérebro) em tempo real, enquanto ao fundo, o paciente realiza o procedimento com segurança no equipamento. Exames precisos são o primeiro passo para um tratamento eficaz.

O protagonismo da Medicina Nuclear

O grande diferencial da Medicina Nuclear está em oferecer uma visão que vai além da aparência externa dos órgãos e tecidos. Enquanto radiografias e tomografias registram apenas suas estruturas, os insumos e procedimentos utilizados por médicos nucleares permitem acompanhar o funcionamento do corpo em nível celular e metabólico, revelando alterações fisiológicas antes de as modificações anatômicas se tornarem evidentes.

Mas como o enfoque funcional ajuda a detectar mudanças internas que permanecem ocultas na anatomia? “Com exames como cintilografias e PET/CT, é possível mapear a circulação sanguínea do coração, identificar tumores, avaliar a atividade cerebral e verificar o funcionamento da tireoide, entre milhares de outros usos clínicos”, explica Elba Etchebehere. Cintilografias e PET/CT aplicam radiofármacos para visualizar alterações e atividades dos órgãos.

Josilto Oliveira de Aquino evidencia que essa visão metabólica é única e distingue a especialidade de outras áreas da medicina diagnóstica. “E, justamente por envolver radiação ionizante, todo o processo está submetido às normas da ANSN [Autoridade Nacional de Segurança Nuclear], seguindo protocolos rígidos de proteção radiológica”, esclarece.

Imagens de corpo inteiro de um exame PET/CT. Da esquerda para a direita: visão anatômica (CT), mapeamento metabólico (PET) e a fusão de ambas as imagens (PET/CT colorida), destacando com precisão as áreas de alta captação do radiofármaco no corpo. Note o grande destaque na coxa esquerda nas imagens, indicando alta atividade metabólica na região, característica de tecidos tumorais.

Radiofármacos: tecnologia que guia o olhar médico

Um dos pilares da Medicina Nuclear são os radiofármacos, medicamentos que contêm pequenas quantidades de material radioativo e operam como guias no organismo. “Eles são preparados para se dirigir a um órgão ou tecido específico. Uma vez no local desejado, a radiação emitida é registrada por equipamentos de imagem, permitindo enxergar o funcionamento interno ou agir sobre células doentes, como acontece em alguns tratamentos de câncer”, pontua Etchebehere.

Por meio desses compostos, os profissionais investigam doenças cardíacas, distúrbios neurológicos, alterações oncológicas e problemas da tireoide, além de fornecer informações sobre o metabolismo ósseo. Sua capacidade de direcionamento preciso torna-os úteis tanto em exames quanto em terapias que exigem seletividade, o que apoia decisões médicas mais individualizadas.

Aquino salienta que essas substâncias seguem o princípio ALARA (do inglês “As Low As Reasonably Achievable”), isto é, “usar a menor dose necessária para alcançar o melhor resultado clínico”, resume. Para ele, essa combinação de precisão diagnóstica, capacidade terapêutica e protocolos de segurança torna a especialidade muito estratégica para a medicina moderna.

Terapias de precisão

A Medicina Nuclear se consolida também como uma ferramenta terapêutica de grande impacto. Moléculas radioativas são direcionadas a determinados tecidos, atingindo diretamente zonas afetadas e preservando estruturas saudáveis.

“No campo terapêutico, a especialidade oferece abordagens precisas, em que moléculas radioativas são direcionadas ao tecido-alvo. Isso permite, por exemplo, tratar doenças da tireoide, controlar dores ósseas causadas por metástases e, nos últimos anos, atuar em terapias personalizadas contra alguns tipos de câncer”, enfatiza Etchebehere.

Aquino ressalta a consolidação da terapia com Iodo-131 nos anos 1970 no Brasil e a introdução de novos radiofármacos em unidades especializadas. “Hoje, avançamos para radiofármacos inovadores, como o Lutécio-177, utilizado em centros de referência desde 2019. Todos esses tratamentos são aplicados com protocolos que garantem proteção à equipe de saúde, aos pacientes e aos familiares”, diz.

Outro ponto relevante é a segurança das aplicações clínicas. “As doses de radiação administradas são controladas, calculadas de modo individual e equivalem, em muitos casos, à exposição de exames de imagem convencionais. Além disso, a eliminação natural dos radiofármacos pelo organismo ocorre em curto período, o que reduz riscos adicionais”, acrescenta Etchebehere. Ao ajustar os procedimentos às características de cada paciente, esses avanços fortalecem o papel da Medicina Nuclear na medicina de precisão.

O cenário brasileiro

A Medicina Nuclear tem expandido sua presença no Brasil. A abertura de serviços especializados, a instalação de cíclotrons para a produção de radiofármacos e a incorporação de tecnologias avançadas no Sistema Único de Saúde (SUS) e na rede privada aumentam a disponibilidade de exames e tratamentos.

De acordo com a CNEN, em setembro de 2026, o país possui 457 instalações autorizadas, que realizam mais de 2 milhões de procedimentos ao longo do ano. Apesar dos números expressivos, o uso da Medicina Nuclear ainda é limitado: a taxa de atendimento corrigida por 100 mil habitantes é cinco vezes menor que nos Estados Unidos e três vezes inferior à de nações vizinhas, como Argentina e Chile, segundo este relatório da SBMN.

Para a presidente da sociedade, a realidade é de assimetrias e desafios estruturais. “Ainda existe desigualdade regional e, mais recentemente, o setor enfrenta uma crise de desabastecimento de insumos radioativos, o que reforça a necessidade de investimentos contínuos para que a população de diferentes estados possa contar com esses recursos de forma estável, retoma Etchebehere.

A ampliação das unidades clínicas exige suporte técnico e acompanhamento seguro do uso de radiação em todo o país. É nisso que acredita Josilto Oliveira de Aquino: “os serviços estão concentrados no Sudeste e no Sul, enquanto as regiões Norte e Nordeste têm menor cobertura. Aqui, a proteção radiológica é central, pois a expansão é feita com infraestrutura adequada, recursos humanos qualificados e sistemas de vigilância radiológica em todas as regiões”.

Instituições científicas e horizontes da Medicina Nuclear

Diante dos desafios do setor, a SBMN assume um papel-chave. “A entidade atua na formação de especialistas, na elaboração de diretrizes clínicas e na interlocução com autoridades de saúde para viabilizar a atualização tecnológica no país”, afirma Etchebehere. Além dessas funções, ela também é responsável por divulgar informações qualificadas à população e incentivar a pesquisa científica.

Nesse contexto, o CancerThera soma esforços ao trabalho da SBMN. De acordo com Etchebehere, o Centro de Inovação Teranóstica em Câncer — daí o nome “CancerThera” — concentra-se em desenvolver radiofármacos inovadores, com foco em terapias direcionadas para o câncer. Financiado como um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), ele reúne grupos multidisciplinares que aproximam universidades, hospitais e indústrias para transformar descobertas científicas em soluções aplicáveis na prática clínica, especialmente voltadas para o modelo Teranóstico — terapia baseada em diagnóstico em uma mesma abordagem.

Por sua vez, o presidente da SBPR observa que as sociedades médicas devem unir esforços para que inovação e segurança se desenvolvam simultaneamente: “SBMN e SBPR contribuem de forma complementar para que o Brasil avance com inovação, responsabilidade e qualidade no uso da radiação em saúde, trazendo benefícios para toda a sociedade brasileira”. A colaboração entre sociedades científicas e centros de pesquisa visa aproximar o laboratório do paciente e levar inovações em Medicina Nuclear diretamente para a prática clínica.

Neste vídeo, você poderá conhecer mais das pesquisas desenvolvidas no CancerThera e de que modo elas podem beneficiar pacientes oncológicos. A médica nuclear Elba Etchebehere é uma das entrevistadas.

Sobre a série “Decodificando a Medicina Nuclear”

Esta reportagem inaugura a série Decodificando a Medicina Nuclear, composta por cinco textos sobre diferentes ângulos da especialidade. No próximo capítulo, especialistas em Radioquímica, Radiofarmácia e Medicina Nuclear compartilharão suas perspectivas sobre radiofármacos, abordando avanços, desafios e aplicações dessa tecnologia de ponta.


Texto: Romulo Santana Osthues e Vinícius Brito | Imagens: Romulo Santana Osthues, banco de fotos e/ou geradas por IA

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