
Quando a ciência de fronteira encontra a visão de mercado, o resultado é a aceleração do futuro. É com esse espírito que o CEPID CancerThera celebra a conquista da equipe feminina LumiNova, composta por estudantes da Ilum Escola de Ciências — Gisela Ceresér Kassick, Lília Helena Gavazza Pessôa, Lívia Maria Barbosa de Aragão, Mariana Melo Pereira e Samarah Luiza de Medeiros Ramos —, que levou o primeiro lugar no Desafio Unicamp 2026, sendo também vencedora na categoria voto popular. Ao escolher como base de seu plano de negócios a patente do complexo AgNMS — uma formulação inovadora que une íons de prata (Ag) e o anti-inflamatório nimesulida (NMS) em um tratamento tópico focado em otimizar o combate às neoplasias cutâneas —, as jovens empreendedoras demonstraram que a inovação gerada nos laboratórios do centro está pronta para transformar a realidade oncológica.
Da bancada ao mercado: o potencial da patente AgNMS
O trajeto que levou ao reconhecimento no Desafio Unicamp deste ano tem raízes profundas na dedicação científica. A tecnologia vencedora gira em torno da aplicação do complexo AgNMS em um dispositivo desenvolvido para otimizar o tratamento de neoplasias cutâneas, potencializando a eficácia terapêutica e oferecendo um cuidado mais direcionado para lesões cutâneas. O que começou a ganhar forma pública em 2022, quando o potencial da associação farmacológica obteve destaque, amadureceu em solidez e valor estratégico ao longo dos anos.

No ecossistema do Desafio Unicamp, essa patente deixou de ser apenas um ativo acadêmico e ganhou tração comercial. Transpor essa barreira, no entanto, exigiu visão e rigor. Como aponta a Dra. Ana Lucia Tasca Gois Ruiz, docente em Ciências Farmacêuticas na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual de Campinas (FCF/Unicamp), pesquisadora associada ao CancerThera e mentora acadêmica da equipe, um dos grandes méritos do processo foi exercitar essa dupla perspectiva: “permitir que os estudantes pensem sobre as soluções apresentadas nas patentes tanto do ponto de vista científico quanto do ponto de vista empresarial”.
A vivência prática dessa transição revelou-se transformadora para as estudantes. Como destaca Mariana Melo Pereira, integrante da equipe vencedora, “participar do Desafio Unicamp foi uma oportunidade de entender que uma boa tecnologia, por si só, não garante que ela chegue às pessoas que precisam dela”. A partir do suporte de mentorias empresariais e de negócios oferecidas na plataforma da competição, as alunas traduziram a complexidade físico-química do AgNMS em um modelo viável, percebendo a necessidade de olhar para além da bancada para “pensar também nas necessidades dos pacientes, na viabilidade da solução, no mercado, na regulamentação, nos investimentos e em como poderíamos transformar uma pesquisa tão relevante, idealizada pelos pesquisadores do CancerThera, em um produto com impacto real, que alcançasse o maior número de pessoas”, explica Pereira.
A força da pesquisa translacional e do ecossistema CancerThera
O sucesso no prêmio não é um evento isolado, mas sim o reflexo direto de um ambiente estruturado para a pesquisa translacional [etapa que busca transformar descobertas de laboratório em aplicações práticas para a saúde]. Integrado ao CancerThera, o desenvolvimento do AgNMS se beneficia de um trabalho multidisciplinar no qual Oncologia, Química Farmacêutica e inovação tecnológica caminham lado a lado.
Acompanhar esse percurso de perto exigiu imersão. Segundo Ruiz, que orientou o grupo por meio de reuniões online e trocas de e-mails, o suporte institucional envolveu desde resgatar o histórico do desenvolvimento da patente e compartilhar publicações do grupo de pesquisadores ligado ao estudo até conectar os alunos com outros integrantes da frente de pesquisa para esclarecer dúvidas sobre o nível de maturidade tecnológica do dispositivo. Essa retaguarda técnica garantiu que as estudantes compreendessem a profundidade do que estavam manejando antes de projetarem sua escalabilidade comercial.
O papel transformador da mentoria e do empreendedorismo científico

Mais do que celebrar uma patente, a vitória no Desafio Unicamp 2026 coroa a importância da formação de talentos e da cultura de inovação. A competição funciona como uma verdadeira incubadora de mentalidades, na qual estudantes são desafiados a olhar para fora dos muros da academia e projetar o impacto de suas ideias no mundo real.
“Como o foco é a formação e a pesquisa, o dia a dia acadêmico nem sempre nos disponibiliza tempo e ambiente para pensar em questões diretamente relacionadas a como transformar as ideias e soluções obtidas nas pesquisas em modelos de negócio que possam ser transferidos para a sociedade. Por isso, esse evento organizado pela agência INOVA é tão relevante”, avalia Ruiz.
Para as estudantes, a experiência acadêmica ganhou uma nova dimensão. Pereira pontua que o processo permitiu colocar em prática o aprendizado de sala de aula e que, ao “assistir aos workshops e treinamentos e conversar com nossos mentores, conseguimos até antecipar conceitos e ideias que só veríamos mais adiante no curso”.
Desafios práticos não faltaram ao longo do percurso. Entre as barreiras superadas pela equipe, Ruiz destaca que “um dos principais desafios foi pensar como escalonar a produção do dispositivo a partir das informações obtidas durante a pesquisa assim como estimar os custos de produção”. Além disso, as discussões se aprofundaram em frentes essenciais ligadas à sustentabilidade e à bioengenharia, passando por detalhes como “a estabilidade (tempo de prateleira) do dispositivo contendo o complexo AgNMS e a logística reversa, ou seja, ao final do uso qual seria o destino mais adequado para o dispositivo”, explica a pesquisadora.
Olhos no futuro: o impacto real na vida dos pacientes
Por trás de cada indicador de inovação e de cada modelo de negócio bem-sucedido, existe uma motivação humanitária. O avanço de propostas terapêuticas como o complexo AgNMS visa, em última análise, a oferecer alternativas mais eficazes, seguras e acessíveis para o tratamento de pacientes oncológicos que enfrentam o câncer de pele.
Superar barreiras e desmistificar o empreendedorismo científico é parte dessa jornada. Como resume a estudante Samarah Luiza de Medeiros Ramos, integrante da equipe vencedora, a conquista representou uma virada de chave pessoal sobre o papel da inovação. “Vencer um desafio voltado à inovação foi uma conquista para mim, pois eu sempre senti que não me encaixava nesse meio. Hoje, porém, entendo que inovação é, acima de tudo, trazer algo de bom para a sociedade. Quando passei a enxergar a inovação por essa perspectiva, meu olhar mudou completamente”, avalia.
Ramos destaca ainda o orgulho de propor soluções voltadas ao sistema público: “Eu pude participar do desenvolvimento de um modelo de negócios que propõe trazer um tratamento ao SUS”. Experiência que, segundo ela, deixa um legado de incentivo para que outros estudantes acreditem em si mesmos. “Por isso, minha mensagem é: se você tem uma ideia que pode vir a ajudar a vida de alguém, faça de tudo para torná-la realidade. Ainda mais se você puder fazer isso de maneira acessível ao maior número de pessoas possível.”
O Desafio Unicamp
Promovido anualmente pela Inova Unicamp, o Desafio Unicamp consolidou-se como a principal competição de modelos de negócios baseados em tecnologias patenteadas pela universidade. A iniciativa tem como missão acelerar a cultura do empreendedorismo acadêmico, conectando a propriedade intelectual gerada nos laboratórios do campus com o mercado e com a sociedade.
Na edição de 2026, a maratona de inovação registrou números expressivos: foram 324 inscritos divididos em 80 equipes, reunindo participantes de 54 instituições diferentes. Entre as dezenas de concorrentes, seis equipes chegaram à final, disputando as categorias de Avaliação da Banca e Voto Popular — sendo a equipe LumiNova vencedora em ambas as frentes.
O alcance e a força desta edição são sintetizados por Marina Silva, gerente de inovação e administração na Inova Unicamp: “Chegar à 16ª edição do Desafio Unicamp com participantes de 14 estados brasileiros e, pela terceira vez em nossa história, reunir representantes das cinco regiões do país demonstra o alcance e a relevância que a competição conquistou ao longo dos anos. Também batemos o recorde de público na final, com mais de 600 inscritos, o que reforça o interesse crescente pelo empreendedorismo tecnológico e pelo potencial das pesquisas desenvolvidas na Unicamp”.
Os pesquisador envolvidos na pesquisa que originou a patente do complexo AgNMS foram:
Carmen Silvia Passos Lima (Professora Titular em Oncologia do Departamento de Clínica Médica da UNICAMP)
Tuany Zambroti Cândido (Faculdade de Ciências Médicas – UNICAMP)
Raphael Enoque Ferraz de Paiva (Instituto de Química – UNICAMP)
Silmara Cristina Lazarini Frajácomo (Universidade de Araraquara – UNIARA)
Douglas Hideki Nakahata (Instituto De Química – UNICAMP)
Nayara Aparecida Simei Aquaroni (Universidade de Araraquara – UNIARA)
Pedro Paulo Corbi (Instituto de Química – UNICAMP)
Wilton Rogério Lustri (Universidade de Araraquara – UNIARA)
Ana Lúcia Tasca Gois Ruiz (Faculdade de Ciências Farmacêuticas – UNICAMP)
Karin Maia Monteiro (Faculdade de Ciências Farmacêuticas – UNICAMP)
João Ernesto de Carvalho (Faculdade de Ciências Farmacêuticas – UNICAMP)
Camilla Abbehausen (Instituto de Química – UNICAMP)
Faculdade e Instituto envolvidos:
Faculdade de Ciências Médicas – UNICAMP
Instituto de Química – UNICAMP
Faculdade de Ciências Farmacêuticas – UNICAMP
Parceiro: Universidade de Araraquara – UNIARA
Texto: Xenya Bucchioni







