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Ciência que transforma: 3º Simpósio Julho Verde e 1º Simpósio RECONNeckt unem forças pelo avanço oncológico

A medicina oncológica atravessa um momento de transformação no qual a excelência técnica precisa caminhar de mãos dadas com a humanização e a tecnologia. Nos dias 10 e 11 de julho de 2026, a realização conjunta do 3º Simpósio Julho Verde – Câncer de Cabeça e Pescoço e do 1º Simpósio RECONNeckT, sediados no no Instituto de Otorrinolaringologia & Cirurgia de Cabeça e Pescoço da Universidade Estadual de Campinas (IOU/Unicamp), consolidou um modelo de encontro científico por meio do qual a teoria, a prática cirúrgica e a inovação se encontram para redefinir o cuidado ao paciente.

Essa sinergia entre os eventos permitiu unir a expertise do CEPID CancerThera na produção e na difusão científica com a missão prática da Associação RECONNeckT, que atua na capacitação de cirurgiões em procedimentos complexos e na promoção de cirurgias reconstrutivas humanitárias, ambos dedicados a casos ligados aos tumores de cabeça e pescoço. 

Educação, humanização e prática

A parceria entre as iniciativas trouxe um dinamismo inédito ao evento ao integrar o treinamento prático em uma programação que discutiu, simultaneamente, decisões oncológicas de alta complexidade. Através de Tumor Boards, especialistas de diferentes áreas debateram casos reais, demonstrando que a integração entre Oncologia, cirurgia e reconstrução é vital para o sucesso terapêutico. 

O evento também reforçou a reabilitação como um pilar essencial na jornada do paciente, que vai além da cura oncológica, dedicando espaços para o treinamento prático com próteses fonatórias e soluções para desafios como a disfagia e a mucosite. Ao incorporar a medicina de precisão na programação, reforçou ainda o papel da ciência na personalização do cuidado, reduzindo efeitos colaterais e aumentando a assertividade dos tratamentos.

Para a Dra. Fátima Cristina Mendes de Matos, médica cirurgiã de cabeça e pescoço, coordenadora do serviço de cirurgia de cabeça e pescoço da Universidade de Pernambuco, coordenadora do evento e fundadora da RECONNeckT, essa preocupação com a formação prática é central para os residentes e estudantes. Conforme observou, o contato direto com a especialidade é o que motiva a nova geração de estudantes: “É nessa idade que começamos a apresentar as novas tecnologias aos jovens, mostrando todas as possibilidades de cuidado para o paciente oncológico”.

Quem corrobora essa visão é Isabela Diniz, estudante do 3º ano e aluna do programa Pesquisador em Medicina (MD-PhD) da Unicamp. Frequentadora assídua do Simpósio Julho Verde desde a sua primeira edição, ela destaca que a inclusão das atividades práticas neste ano representou um salto qualitativo para o seu aprendizado. Segundo Diniz, o formato permitiu “consolidar parte do que a gente consegue ver ali nos casos clínicos apresentados e aplicar aqui na prática”, o que ajuda a fixar o conhecimento e a tornar a experiência mais proveitosa mesmo para alunos de graduação, apesar da complexidade inerente aos temas discutidos.

3º Simpósio Julho Verde e 1º Simpósio RECONNeckT
Clique no álbum para visualizar melhor e baixar as fotografias do evento – ou através deste link.

Evolução e conscientização: o impacto na ponta

Ao refletir sobre a trajetória do Julho Verde, a oncologista clínica, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/Unicamp) e pesquisadora associada ao CancerThera Dra. Lígia Traldi Macedo aponta que o crescimento do evento reflete uma necessidade urgente da especialidade. Há três anos, relembra, “a primeira edição começou com um dia de simpósio, chamando alguns convidados externos. No segundo ano, repetiu o formato, mas já com mais inscritos e mais demanda de temas de discussão multidisciplinar”. Este ano, Macedo, que é também uma das coordenadoras do evento, celebrou a presença de especialistas de diversas áreas e de todos os estados do país. “O programa está crescendo cada vez mais, e espero que continue e fique cada vez maior”, afirma a pesquisadora, lembrando que a essência do Julho Verde permanece a mesma, a promoção do diagnóstico precoce do câncer de cabeça e pescoço.

Como reforça o cirurgião de cabeça e pescoço Dr. Carlos Takahiro Chone, professor da FCM/Unicamp e pesquisador associado ao centro, a mudança de paradigma começa na compreensão de que casos extremos, muitas vezes, tiveram um início silencioso. “A grande importância do Julho Verde, apesar de mostrar casos complexos, é que os futuros profissionais vejam que esses casos complexos, uma vez, foram casos pequenos”, explica. Segundo Chone, o diagnóstico precoce é o maior aliado não apenas para a sobrevida, mas para a manutenção da qualidade de vida do paciente.

Para a Dra. Carmen Silvia Passos Lima, médica oncologista, professora da FCM/Unicamp, pesquisadora principal e coordenadora da área de Inovação no CancerThera, o evento cumpriu seu papel ao suscitar debates essenciais: “Foram apresentados conhecimentos e atualizações essenciais para que médicos e demais profissionais que prestam assistência ao paciente com câncer de cabeça e pescoço, dos setores público e privado de diversas partes do país, atuem de forma integral e humanizada no exercício de suas funções”.

A força da multidisciplinaridade
Um dos consensos entre os especialistas, ao longo do evento, é que o câncer de cabeça e pescoço não se resolve isoladamente. Palestrante no evento, o Dr. Lucas Tenório, cirurgião e especialista em cabeça e pescoço pela Santa Casa de São Paulo, enfatiza que a abordagem multidisciplinar é um imperativo ético. “Por menor que seja o problema, quando a gente pensa em câncer, principalmente na cabeça e no pescoço, o ideal é a abordagem multidisciplinar, com vários profissionais médicos e até não médicos envolvidos no cuidado do paciente”, avalia.

Essa sinergia foi detalhada pela Dra. Maria Carolina Mendes, nutricionista, pesquisadora associada e pós-doutoranda em Gestão da Pesquisa – Inovação e Transferência de Tecnologia no CancerThera. Para ela, o sucesso do tratamento depende de uma orquestração precisa: “Se a gente está pensando em reabilitação, exige que os médicos tenham um olhar bem atencioso em relação ao que isso significa. Ter um time completo realmente é o que a gente vê que faz total diferença no acompanhamento desse paciente”.

Inovação e governança na área de saúde

O evento também foi palco para conversas urgentes, como o papel da tecnologia em saúde em tempos de Inteligência Artificial (IA). Parte dessa conversa esteve presente na palestra do médico cirurgião oncológico e especialista em cirurgia de cabeça e pescoço, Francisco Araújo Dias, que deu um passo além da medicina para concluir um MBA em Data Science aplicada à saúde pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Para o especialista, o sucesso desse cenário digital não reside na tecnologia em si, mas na forma como é aplicada no cuidado: “Hoje, as ferramentas de engajamento para terapeutas são as que mais crescem no mercado porque elas ajudam o paciente a entender, com suas próprias palavras, o que ele precisa fazer. Então, em vez do “mediquês”, a ferramenta o ajuda a compreender melhor [a doença]”, explica. 

Dias ressalta que, independentemente da modalidade — seja presencial ou telemedicina —, o acolhimento de um médico ou de uma nutricionista permanece o fator determinante para que a tecnologia cumpra seu papel de levar o paciente ao destino final do tratamento. Mais do que ferramentas, o especialista defende que a Medicina precisa de governança ética, garantindo a proteção dos dados dos pacientes e, acima de tudo, o protagonismo do médico na cocriação dessas soluções. Para ele, o futuro da Oncologia depende de profissionais que compreendam o linguajar tecnológico sem abandonar a prática clínica, pois é no contato direto com os desafios reais do paciente que nascem as maiores inovações. 

Com os olhos também voltados ao futuro, Carmen Lima deixa uma mensagem clara aos jovens profissionais que hoje buscam seu espaço, seja na pesquisa ou na assistência oncológica: “Penso que os jovens profissionais com perfil assistencial devam atuar em equipe e não de forma individual, visando ao atendimento integral aos pacientes com câncer de cabeça e pescoço e respeitando as suas escolhas pessoais. Já esforços para o desenvolvimento de novos fármacos e procedimentos terapêuticos necessários para poupar vidas e anos de vida dos pacientes com câncer de cabeça e pescoço ficarão a cargo daqueles jovens profissionais com perfil de pesquisador”, avalia.

Texto: Xenya Bucchioni | FotosRomulo Santana Osthues 

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