Este texto foi originalmente publicado no portal Hora Campinas em 02/03/2026.
– Por Carmino de Souza
Dentre as prioridades estabelecidas para os próximos sete anos pela Comunidade Europeia das Nações, a única prioridade no campo da saúde é o conhecimento e o enfrentamento do câncer. Um exemplo deste esforço foi a Conferência de Pesquisa em Prevenção do Câncer de 2025 em Londres, Reino Unido, organizada pela Cancer Research UK e pela American Cancer Society.
O evento atraiu especialistas internacionais, pesquisadores e defensores de pacientes para discutir avanços na biologia do câncer, estratégias de prevenção e desafios políticos e assistenciais.
Seu objetivo era reunir clínicos, acadêmicos, representantes da indústria, organizações financiadoras e defensores de pacientes para discutir avanços científicos, formar novas colaborações e conhecer novos colegas. O programa combinou palestras, sessões científicas, debates e painéis de discussão.
Durante a conferência, palestrantes e apresentadores de pôsteres exploraram uma grande variedade de tópicos diferentes, com forte foco nos seguintes temas e ideias principais:
Biologia pré-cancerígena: Avanços na compreensão da biologia das lesões iniciais e que abrem novas oportunidades de intervenção;
Papel do sistema imunológico: A disfunção imunológica é cada vez mais reconhecida como fundamental para o desenvolvimento e a prevenção do câncer;
Desigualdades: As disparidades socioeconômicas e geográficas continuam sendo grandes obstáculos para a prevenção equitativa do câncer;
Envelhecimento e genética: A interação entre os processos de envelhecimento e a predisposição genética influenciam o risco de câncer;
Reutilização de medicamentos: Crescem as evidências da eficácia de estratégias de prevenção de precisão, embora ainda existam desafios na implementação;
Debates políticos: Discussão sobre quando a prevenção deve começar (início da vida versus idade adulta), agonistas do GLP-1 e viabilidade da implementação em toda a população;
Perspectivas do paciente/público: Ênfase no envolvimento de vozes não científicas na definição de riscos e prioridades.
Sessões detalhadas de pôsteres proporcionaram uma plataforma para que os participantes se reunissem e discutissem mais de 100 projetos diferentes. Os pôsteres abordaram desde biologia básica e mecanismos moleculares até epidemiologia, ensaios de prevenção e ciência da implementação. A ênfase foi na integração de conhecimentos moleculares com dados populacionais para fundamentar a prevenção de precisão. Muitos pôsteres focaram em modificação do estilo de vida, reposicionamento de medicamentos e ferramentas de detecção precoce. Diversos projetos destacaram disparidades (geográficas, socioeconômicas, de acesso à saúde) e debateram várias abordagens e ferramentas para mitigá-las.
A conferência focou nos avanços científicos e nos desafios sistêmicos na prevenção do câncer, concluindo que a integração de conhecimentos biológicos, acesso equitativo e perspectivas da comunidade são essenciais para traduzir as evidências em prática de saúde pública.
Acompanhar o que o mundo está discutindo e decidindo neste crítico tema de saúde pública e para a humanidade é fundamental para que nós no Brasil, particularmente, em nosso SUS, possamos tomar as melhores decisões e assim permitir avanços e acesso a nossa população.
Câncer é e será prioridade por muitas décadas que virão, e é uma área efervescente da ciência. Vamos seguir juntos e fazer as melhores escolhas. Ciência e políticas públicas nunca foram antagônicas e podem fornecer a nossos pacientes tudo de bom e de bem-estar neste enfrentamento do câncer, que é nosso desejo e nossa responsabilidade.
>>> Carmino Antônio de Souza é professor titular da Unicamp e pesquisador responsável pelo CEPID CancerThera. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo (1993-1994), da cidade de Campinas (2013 e 2020) e secretário-executivo da Secretaria Extraordinária de Ciência, Pesquisa e Desenvolvimento em Saúde do Governo do Estado de São Paulo (2022). Atualmente, é presidente do Conselho de Curadores da Fundação Butantan, conselheiro e vice-presidente da FAPESP, além de diretor-científico da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH).








