Por Carmino de Souza

Em 1982, o Sri Lanka foi atingido por uma grande epidemia de sarampo: 13 mil casos. A vacina contra o sarampo ainda não fazia parte do programa nacional de imunização daquele país; ela só foi incluída dois anos depois. Centenas de mortes ocorreram naquele período. Este é um extraordinário exemplo de como a vacinação contra o sarampo é fundamental nas várias sociedades através do mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS), infelizmente, confirmou que o Reino Unido não atende mais aos critérios para a eliminação do sarampo. Armênia, Áustria, Azerbaijão, Canadá, Espanha, Uzbequistão dentre outros países, também perderam seu status de países livres da doença recentemente. Os Estados Unidos (poderosos e ricos) estão à beira de perder o seu, com o CDC registrando 2.242 casos confirmados em 2025, o maior número desde 1991.
Algumas respostas políticas recentes têm sido preocupantes. Um alto funcionário do CDC (Centers for Disease Control and Prevention) de Atlanta nos Estados Unidos descreveu o risco de perder o status de doença eliminada como “o custo de se fazer negócios” e o apresentou como uma compensação necessária pelas liberdades e escolhas de determinadas comunidades. Mais alarmante ainda, o presidente do Comitê Consultivo de Práticas de Imunização do CDC afirmou: “O que vamos vivenciar é uma experiência real de quando pessoas não vacinadas contraírem sarampo. Qual será a nova incidência de hospitalizações? Qual será a incidência dos agravos e de mortes?”.
Essa mentalidade indica uma tendência preocupante de tratar o sarampo como algo lamentável, porém inevitável: um surto aqui ou um grupo ali como a infeliz consequência da vida moderna e das diferenças de valores. Essa abordagem distorce fundamentalmente o que é o sarampo. Não se trata de um rito de passagem benigno ou de uma troca aceitável. O sarampo pode afetar gravemente crianças previamente saudáveis, causar complicações para toda a vida e até mesmo levar à morte.
Mas, importante ressaltar, não só crianças. Sua disseminação é mais rápida onde permitimos que os vazios de imunidade aumentem. E é quase totalmente evitável por meio da vacinação. Voltando ao exemplo do Sri Lanka, em 1982, a incidência atingiu 87 por 100.000 habitantes. Após os programas de vacinação, esse número caiu para 0,5 por 100.000 em 1998 – e isso apesar da brutal guerra civil que interrompeu os serviços, deslocou comunidades e dificultou a prestação de cuidados médicos de rotina durante esses anos. Enfim, todas as crianças têm direito ao mais alto padrão de saúde possível, e a proteção contra doenças perigosas e evitáveis por vacinação faz parte do que esse direito significa. Levar esse direito a sério exige que paremos de encarar o sarampo como uma consequência aceitável de escolhas e concessões.
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