
A paracoccidioidomicose (PCM), micose sistêmica negligenciada de alta relevância clínica e epidemiológica no Brasil, ganhou um aliado poderoso no mapeamento preciso de sua gravidade. Um novo estudo conduzido por pesquisadores do CEPID CancerThera demonstrou que a tecnologia de imagem molecular por FDG PET/CT é capaz de detectar mais do que o dobro de lesões corporais em comparação com os métodos convencionais de estadiamento.
O trabalho, intitulado FDG-PET/CT Demonstrates Superior Detection of Multiorgan Involvement in Paracoccidioidomycosis Compared with Conventional Staging e publicado na revista científica Clinical Infectious Diseases, aponta que a ferramenta redefine o panorama diagnóstico da doença, com impactos diretos na conduta médica e no tempo de tratamento dos pacientes.
Precisão ampliada contra uma micose desafiadora
Conhecida popularmente como a “doença do plantador de café”, a paracoccidioidomicose é contraída pela inalação de esporos do fungo do gênero Paracoccidioides presentes no solo. Embora afete primariamente os pulmões, a infecção pode se disseminar de forma silenciosa e agressiva para múltiplos órgãos por vias linfáticas e sanguíneas. O grande desafio clínico reside justamente no estadiamento tradicional [processo médico que consiste em avaliar a extensão, a gravidade e o grau de disseminação de uma doença pelo corpo para definir a melhor conduta terapêutica]: exame físico, sorologias e radiografias de tórax frequentemente subestimam a verdadeira extensão da carga parasitária e inflamatória no corpo, identificando lesões pulmonares isoladas enquanto focos extrapulmonares passam despercebidos.
Para solucionar essa lacuna, a pesquisa avaliou prospectivamente 34 pacientes com diagnóstico confirmado de PCM (entre indivíduos não tratados e indivíduos com suspeita de falha terapêutica). Todos os participantes foram submetidos tanto ao estadiamento clínico-convencional padronizado quanto a exames de corpo inteiro com FDG PET/CT.
Os resultados obtidos impressionam: “em nosso estudo observamos que o PET/CT identificou mais que o dobro de lesões em comparação com a avaliação convencional (150 versus 62), detectando, por exemplo, novas áreas de acometimento da doença que não haviam sido diagnosticadas com outros exames, com destaque para linfonodos, pulmões e glândulas adrenais. Além disso, o PET/CT reclassificou os pacientes como portadores de doença multifocal em 97% dos casos e elevou a proporção de casos classificados como graves, de 70,6% para 91,2%, evidenciando que o método pode ser mais acurado em avaliar tanto extensão quanto a gravidade da doença”, detalha Pricila Gama da Cunha, doutoranda em Clínica Médica pela Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp (FCM-Unicamp).

A reclassificação da paracoccidioidomicose como uma condição multifocal e grave traz reflexos diretos para a prática médica. Como explica o Dr. Plinio Trabasso, médico infectologista e professor associado da FCM/Unicamp, essa mudança conceitual aprimora o entendimento da fisiopatogenia da infecção [mecanismos biológicos e celulares pelos quais os agentes agressores provocam o desenvolvimento e a evolução de uma doença no organismo]. Como destaca o especialista, a doença sistêmica apresenta um “componente inflamatório muito intenso, o que explica a síndrome consumptiva que acompanha o quadro e precede o diagnóstico” – um quadro clínico grave, caracterizado perda de peso acentuada, desnutrição, fraqueza extrema e debilitação física progressivo.
O que o exame enxerga e o valor do biomarcador metabólico
Para entender como os médicos conseguem avaliar a gravidade da paracoccidioidomicose, é preciso olhar para dentro do organismo através da tecnologia. O exame de PET/CT utiliza um marcador radioativo chamado FDG — uma molécula análoga à glicose que “ilumina” os locais do corpo onde há um consumo acelerado de energia. Como tanto as células do câncer quanto os focos de infecções graves e inflamações gastam muita energia, eles se destacam no exame.
É aí que entram os biomarcadores quantitativos e volumétricos: como o volume metabólico das lesões (TMLV) e a glicólise total (TLG), métricas avançadas avaliadas no estudo. Em termos simples, em vez de apenas tirar uma “foto” estática para ver onde a infecção está, os pesquisadores conseguem calcular, por meio de softwares, o volume total e a intensidade exata do tecido doente espalhado pelo corpo. Dessa forma, se o paciente apresenta altos volumes metabólicos mesmo após o início do tratamento, isso pode indicar uma falha terapêutica ou resistência do fungo, funcionando como um “painel de controle” para guiar os médicos em direção a uma conduta mais assertiva.
Além de contar o número de lesões, o estudo explorou a quantificação metabólica avançada por meio de parâmetros como o SUVmax (captação máxima de glicose marcada), o TMLV e o TLG. Os pesquisadores observaram que esses índices numéricos apresentam correlação significativa com os títulos sorológicos e com marcadores inflamatórios tradicionais, como a Proteína C-reativa (PCR) e a velocidade de hemossedimentação. Segundo Gama, “pacientes com suspeita de falha terapêutica apresentavam valores significativamente menores de TMLV e TLG em comparação aos pacientes ainda não tratados, sugerindo que esses parâmetros refletem com precisão a extensão metabólica da doença e sua resposta ao tratamento”.
Outro ponto de destaque do estudo foi a comparação direta com a cintilografia com Gálio-67, um exame de Medicina Nuclear já consagrado na avaliação tradicional: o PET/CT demonstrou capacidade de detectar quatro vezes mais sítios de infecção ativa, oferecendo imagens superiores em termos de resolução anatômica em um tempo de aquisição consideravelmente menor.
Como pondera o Dr. Celso Dario Ramos, médico nuclear, professor da FCM/Unicamp e vice-diretor do CEPID CancerThera, a mensagem central do artigo é a de que “doenças negligenciadas não precisam apenas de novos medicamentos, mas também de tecnologias modernas de imagem para que se faça o correto diagnóstico, a avaliação da extensão da doença e o monitoramento da doença”.
Infraestrutura pública e o papel estratégico do CEPID
Para viabilizar uma pesquisa com esse nível de complexidade técnica e rigor quantitativo, a retaguarda tecnológica desempenhou um papel determinante. Avanço obtido pela equipe reflete diretamente a infraestrutura do CancerThera e o suporte contínuo da FAPESP. Segundo Ramos, o estudo sequer existiria sem o equipamento de PET-CT, cuja aquisição prévia e o posterior upgrade permitiram não apenas a realização dos exames, mas também a recuperação dos dados para as quantificações e a geração das imagens do artigo.
O pesquisador destaca ainda que o equipamento utilizado na Unicamp é um dos raros no país dedicados exclusivamente ao atendimento de pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). Ressaltando a importância desse uso, Ramos defende que o investimento governamental na expansão de PET-CTs voltados à rede pública é um passo urgente — não apenas para a avaliar doenças oncológicas, mas também para o manejo assertivo de enfermidades endêmicas infecciosas e negligenciadas, como é o caso da paracoccidioidomicose no Brasil.
De olho no futuro, os próximos passos de pesquisa envolvem validar esses achados em estudos multicêntricos e com maior número de pacientes. Como explica Gama, esses trabalhos posteriores deverão “ampliar o grau de certeza das evidências e definir com maior precisão em quais cenários clínicos o PET/CT oferece maior benefício”. Além de confirmar seu papel no estadiamento da doença, a pesquisadora afirma que “esses estudos deverão esclarecer de que forma o PET/CT pode orientar decisões terapêuticas mais individualizadas, especialmente quanto à duração do tratamento e ao acompanhamento de órgãos específicos.”
Ficha Técnica do Estudo
Artigo: FDG-PET/CT Demonstrates Superior Detection of Multiorgan Involvement in Paracoccidioidomycosis Compared with Conventional Staging.
Publicação: Clinical Infectious Diseases (Oxford Academic)
Instituições: Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) — incluindo a Divisão de Medicina Nuclear, Departamento de Radiologia e Oncologia, Instituto de Física Gleb Wataghin, Divisão de Doenças Infecciosas do Departamento de Medicina Interna da Faculdade de Ciências Médicas e o Centro de Hematologia e Hemoterapia (Hemocentro).
Financiamento: FAPESP
Pesquisadores envolvidos: Pricila G Cunha, Maria Emília Seren Takahashi, Raquel SB Stucchi, Mariana Paixão Ribeiro, Thiago F Souza, Carmino Antonio de Souza, Barbara Juarez Amorim, Maria Luiza Moretti, Plínio Trabasso, Celso Dario Ramos.
Texto: Xenya Bucchioni







