Este texto foi originalmente publicado no portal Hora Campinas em 19/01/2026.
– Por Carmino de Souza
Ao longo dos meus 50 anos de carreira médica e acadêmica, minha abordagem para construir colaborações significativas foi moldada tanto por experiências pessoais quanto por insights profissionais sobre liderança.
Como construir redes colaborativas que são produtivas e pessoalmente significativas?
1. Comece com valores e visão compartilhados
Colaborações significativas começam com valores compartilhados, e eu, intencionalmente, sempre busquei colaboradores que se alinhem com minha disposição por criar locais de trabalho equitativos e respeitosos. Explorando liderança ou sustentabilidade no local de trabalho e ter uma base de valores comum ajuda a garantir coerência em nosso trabalho e comprometimento com impacto significativo. O que exemplifica esse espírito colaborativo é baseado no princípio de “cuidando daqueles sob sua responsabilidade: o papel da liderança no local de trabalho”. Uma determinação coletiva para humanizar a liderança e confrontar o abuso sistêmico que, muitas vezes, passa despercebido em ambientes organizacionais. O que tornou essa colaboração extraordinária não foi apenas nossa expertise compartilhada, mas nosso compromisso unificado com a segurança profissional e a liderança compartilhada.
2. Acolher a diversidade e o diálogo intercultural
A diversidade — em disciplinas e perspectivas — acrescenta profundidade a qualquer esforço de trabalho ou pesquisa. Como alguém com experiência em sistemas acadêmicos, valorizo profundamente o diálogo intercultural e a investigação interdisciplinar. Minha experiência vivida em contextos de poder me ensinou o quanto profundamente as nuances culturais nos moldam, tais como a autoridade e a voz, e como os conflitos são percebidos e gerenciados. Esses insights não apenas informaram minha lente teórica, mas também me ajudaram a construir colaborações para conduzir trabalhos e pesquisas. O que é considerado abusivo ou inapropriado em um contexto pode ser normalizado ou ignorado em outro. A colaboração com acadêmicos de diferentes formações ajudou a garantir que a análise seja contextualmente fundamentada e relevante. Essa experiência demonstra que a colaboração interdisciplinar e culturalmente consciente produz pesquisas mais inclusivas e impactantes.
3. Construir confiança por meio da transparência e da justiça
A confiança é a base de qualquer colaboração bem-sucedida. A liderança ética enfatiza a justiça, a responsabilização, a transparência e a comunicação aberta ao trabalhar com outras pessoas. Desde o início, é importante garantir que papéis, expectativas e contribuições sejam claramente definidos. Reuniões regulares ajudam a manter a transparência e a abordar potenciais conflitos desde o início. Cada membro pode se revezar e atuar na liderança das discussões, garantindo que todos se sintam ouvidos e valorizados. Isso não apenas fortalece a confiança, mas também enriquece a qualidade de nossas descobertas e oportunidades.
4. Aproveite a tecnologia para se manter conectado
No mundo interconectado de hoje, a tecnologia desempenha um papel fundamental na facilitação da colaboração. Ferramentas como o Microsoft Teams, o Zoom e as mídias sociais como o LinkedIn permitem que pesquisadores se conectem apesar das barreiras geográficas. Durante a pandemia, isso ficou mais claro e foi altamente necessário. Apesar da interrupção parcial de nossos trabalhos, conseguimos trabalhar à distância e, muitas vezes, além das fronteiras, usando ferramentas virtuais para coordenar tarefas e debater ideias. Acredito que a colaboração digital abre portas para parcerias que, de outra forma, seriam impossíveis.
5. Esteja aberto para aprender
Por fim, uma colaboração significativa exige humildade e disposição para aprender. Uma das experiências mais gratificantes da minha carreira foi a parceria com pesquisadores sêniores cuja abordagem metodológica inicialmente era desconhecida para mim. Mas, ao manter a mente aberta, descobri novas técnicas analíticas que aprimoraram meu próprio trabalho. Essa experiência me ensinou que o crescimento acontece quando saímos da nossa zona de conforto e que ter uma mentalidade de aprendizado é a essência de qualquer colaboração significativa. A riqueza científica está nas diferenças e nas colaborações. Ninguém faz mais nada sozinho, e o contraditório é fundamental à inovação e ao aperfeiçoamento.
>>> Carmino Antônio de Souza é professor titular da Unicamp e pesquisador responsável pelo CEPID CancerThera. Foi secretário de saúde do estado de São Paulo (1993-1994), da cidade de Campinas (2013 e 2020) e secretário-executivo da Secretaria Extraordinária de Ciência, Pesquisa e Desenvolvimento em Saúde do Governo do Estado de São Paulo (2022). Atualmente, é presidente do Conselho de Curadores da Fundação Butantan, conselheiro e vice-presidente da FAPESP, além de diretor-científico da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH).








