A busca por tratamentos oncológicos mais eficazes e acessíveis na América Latina ganhou um reforço estratégico no mês de fevereiro de 2026. Uma comitiva de pesquisadores do CEPID CancerThera realizou, entre 26 e 27, uma visita imersiva a Montevidéu, no Uruguai, para conhecer as instalações e firmar parcerias com os pesquisadores do Centro Uruguaio de Imagiologia Molecular (CUDIM).
O marco central do evento foi a assinatura de um memorando de entendimento entre a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), sede do CancerThera, e o centro de pesquisa uruguaio, selando uma cooperação científica, tecnológica e clínica.
Integração institucional
O estreitamento de laços começou a tomar forma a partir da atuação do Dr. Eduardo Osvaldo Savio Quevedo — radiofarmacêutico, diretor técnico em Radiofarmácia e professor associado no CUDIM — como membro do conselho consultivo internacional do CancerThera, posição que favoreceu o acompanhamento da formulação do projeto e de suas primeiras etapas de implementação.
“Aglutinar uma variedade tão ampla de grupos de pesquisa unidos por um objetivo comum: avançar no acesso do Teranóstico para o benefício dos pacientes, poder unir inovação e acesso com tratamentos personalizados. Grupos com uma importante trajetória, com backgrounds muito diversos e de diferentes instituições fazendo parte do CancerThera já constituíam uma proposta sumamente atrativa”, rememora o pesquisador o momento do convite a ser membro do conselho consultivo.
Em novembro de 2025, ele participou do 2º Workshop CancerThera, e pôde acompanhar de perto as apresentações dos resultados de dois anos e meio de existência do centro de pesquisa brasileiro. “Interagir de forma presencial com líderes de grupos e jovens em formação me permitiu avaliar tanto pontos fortes como áreas com oportunidades de melhoria. Juntos, nasceu a ideia de montar uma agenda CancerThera–CUDIM, que foi evoluindo de maneira fluida nos meses de dezembro e janeiro”, conta o pesquisador sobre os bastidores do encontro recente.
Essa sinergia também é celebrada pelo diretor do CancerThera, o Dr. Carmino Antonio de Souza, médico onco-hematologista e professor da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp (FCM/Unicamp), que enxerga o CUDIM como a materialização do modelo de excelência que o CancerThera almeja consolidar no Brasil. “O que queremos para nosso centro internacionalmente é mais ou menos a ideia do CUDIM: um grande espaço de trabalho, laboratórios, produção e uma interligação umbilical com a área da Saúde”, avalia.
A visita coincidiu com as celebrações dos 15 anos do CUDIM, evento que contou com a presença do presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, bem como com as exposições da ministra da Saúde Pública, Cristina Lustemberg, e da ministra da Indústria, Energia e Mineração, Fernanda Cardona, destacando a recente designação da instituição como o primeiro Centro Colaborador da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) na América Latina em sua área. “É um parceiro-chave para o nosso relacionamento aqui na América Latina. Fico muito contente em ampliarmos o nosso espectro de trabalho”, destaca Souza.
“A nova aliança representa um passo fundamental para a estratégia de expansão internacional do CUDIM nos próximos anos, que potencializa o reconhecimento concedido pela AIEA”, salienta Alarico Rodríguez, médico, especialista em sistemas de saúde e avaliação de tecnologias sanitárias e diretor geral do CUDIM. “A relevância do CancerThera, sua trajetória científica e a magnitude dos projetos que podemos desenvolver em conjunto abrem oportunidades significativas para fortalecer a pesquisa colaborativa, o desenvolvimento de radiofármacos e a geração de conhecimento no campo do Teranóstico”, afirma.

Complementaridade: a força da parceria
O grande diferencial desse acordo é a forma como as duas instituições se completam. Enquanto o CUDIM possui uma infraestrutura altamente ágil e equipada para o desenvolvimento de radiofármacos — incluindo dois cíclotrons e a facilidade de acesso a isótopos inovadores como o Térbio-161 e o Actínio-225 —, o CancerThera oferece um ambiente vasto para testes e validação.
“Eles são um modelo para o nosso futuro laboratório de Radioquímica e Radiobiologia”, afirma o Dr. Celso Dario Ramos, médico nuclear, professor da FCM/Unicamp e vice-diretor do CancerThera. “O que nós temos a oferecer é a capacidade de testar os radiofármacos que eles produzem, estudá-los nas mais diversas neoplasias e tentar estabelecer a real utilidade de cada um deles. O volume de pacientes que nós temos no Hospital de Clínicas da Unicamp é ideal para isso”, complementa.
Para a Dra. Luciana Malavolta Quaglio, radioquímica, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCMSCSP) e pesquisadora principal no CancerThera, a imersão foi altamente produtiva sob a ótica da pesquisa translacional. “Poder observar de perto a infraestrutura integrada de produção, controle de qualidade, imagem molecular e aplicação clínica trouxe perspectivas muito concretas”, garante.
Segundo ela, as visitas adicionais a outras instituições integradas ao CUDIM evidenciaram um ecossistema altamente sinérgico e complementar, no qual é possível estruturar projetos que vão desde a identificação e a validação do alvo molecular até a aplicação clínica do potencial radiofármaco, favorecendo a construção de redes colaborativas com compartilhamento de conhecimento e infraestrutura.
“No Hospital de Clínicas uruguaio, ficou evidente a capacidade de articulação entre assistência e pesquisa clínica, o que é essencial para a condução de estudos translacionais em radiofármacos. Já o Instituto Pasteur demonstrou forte competência em biologia molecular, modelos experimentais e pesquisa básica de alto nível, com estrutura ideal para validação de potenciais radiofármacos”, ela descreve.



Metas práticas e formação de talentos
A agenda de trabalho estipulada já definiu ações imediatas. Eduardo Savio adianta que a cooperação logística começará pelo compartilhamento de peptídeos e, logo em seguida, pela realização de ensaios clínicos conjuntos: “O CancerThera já dispõe de um protocolo aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Unicamp e o CUDIM dispõe do radiofármaco. Serão percorridos os caminhos para ver como implementar a complementaridade”.
Outro pilar será a mobilidade acadêmica. O Dr. Victor Marcelo Deflon, radioquímico, professor do Instituto de Química de São Carlos da Universidade de São Paulo (IQSC/USP) e pesquisador principal no CancerThera, vislumbra intercâmbio de estudantes de graduação e pós-graduação entre os países para a realização de estágios, que é um dos acordos estabelecidos no memorando. “Vejo uma possibilidade muito presente de intercâmbio de estudantes nossos indo para lá para realizar estudos de radiomarcação, de estabilidade, de biodistribuição e captação em tumores. Com isso, teremos um trabalho conjunto de desenvolvimento de radiofármacos, sobretudo metalofármacos voltados para a Medicina Nuclear”, projeta.
“Assim como desejamos o envio dos nossos pesquisadores ao CUDIM, os estudantes do Uruguai serão muito bem-vindos em nossos laboratórios no Brasil”, complementa a Dra. Maria Elvira Pizzigatti Correa, cirurgiã dentista e pós-doutoranda em Gestão Executiva da Pesquisa no CancerThera. “Vivenciar diferentes infraestruturas e métodos de pesquisa expande o horizonte de formação dos alunos, permitindo a troca de experiências e pavimentando o caminho para cooperações científicas prolongadas”, afirma.
A expectativa é que o know-how uruguaio contribua com o amadurecimento das linhas de pesquisa no Brasil. Para o Dr. Pedro Paulo Corbi, químico, professor do Instituto de Química da Unicamp, pesquisador principal e gerente de inovação no CancerThera, o momento é decisivo. “Nós temos muito ainda a construir dentro do nosso centro de pesquisa, sobretudo na área de Radioquímica e Radiofarmácia. Com essa colaboração com o CUDIM e o conhecimento científico e tecnológico de que eles dispõem, nós temos um futuro bastante promissor nessa área”, analisa. Ele reforça: “Houve um entendimento claro de cooperação científica e tecnológica que será fundamental para os próximos anos”.
Texto: Romulo Santana Osthues | Fotos: Assessoria de Comunicação do CUDIM e Maria Elvira Pizzigatti Correa








