O câncer de próstata é uma das principais causas de mortalidade masculina no mundo, tornando-se um desafio clínico relevante ao atingir a fase metastática e resistente à castração (quando as terapias hormonais padrão deixam de fazer efeito). No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima que, entre 2026 e 2028, haverá mais de 77 mil novos casos de câncer de próstata por ano.

Tradicionalmente, terapias utilizando o radiofármaco Lutécio-177-PSMA-617 têm sido reservadas como último recurso para as etapas finais da doença – após cirurgias, quimioterapias e radioterapias. No entanto, em comentário editorial intitulado Insights do PSMAfore: impacto na qualidade de vida relacionada à saúde (do inglês “Insights from PSMAfore: impact on health-related quality of life”), publicado na revista científica Translational Andrology and Urology (Janeiro de 2026, volume 15, número 1) e liderado por pesquisadores do CEPID CancerThera, do Grupo SOnHe/Hospital Vera Cruz e do Grupo MND, os autores destacam uma mudança promissora: a antecipação do uso desse tipo de terapia para poupar, por exemplo, os pacientes dos efeitos ruins da quimioterapia.
O que é a terapia com Lutécio-177-PSMA-617
Essa abordagem utiliza um radiofármaco, que consiste em um medicamento radioativo projetado para atuar de forma direcionada, buscando e se ligando especificamente às células tumorais-alvo. No caso da terapia com Lutécio-177-PSMA-617, os alvos são células tumorais que expressam uma proteína conhecida como Antígeno Específico da Membrana Prostática (PSMA, na sigla em inglês), que tem alta presença nas lesões do câncer de próstata.
Ao encontrar esse alvo, o radiofármaco atua liberando radiação de maneira extremamente localizada, afetando as células do tecido doente, o que diminui a atividade tumoral, destrói os tumores e reduz a inflamação e as dores do paciente. O grande diferencial desse radiofármaco é que, por focar especificamente nas células com a proteína PSMA, ele poupa os tecidos saudáveis ao redor da exposição radioativa excessiva, oferecendo um tratamento eficaz com menor impacto e toxicidade do que as terapias sistêmicas tradicionais – como a quimioterapia.
O momento certo de tratar
A Dra. Elba Etchebehere, médica nuclear, diretora-administrativa do Grupo MND, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas, pesquisadora principal no CancerThera e uma das autoras do comentário editorial, explica a relevância da mudança de paradigma nas práticas clínicas. A proposta é utilizar o Lutécio-177-PSMA-617 logo após a progressão do câncer de próstata com o primeiro tratamento hormonal, antes que o paciente precise de quimioterápicos agressivos, como os taxanos (medicamentos típicos de terapias contra cânceres, como o docetaxel e o cabazitaxel).
Etchebehere ressalta o principal objetivo da estratégia terapêutica: “oferecer uma opção eficaz antes que a doença esteja muito avançada e antes da necessidade de uma quimioterapia mais agressiva”. Segundo ela, a antecipação se reflete diretamente na rotina do paciente, proporcionando “maior tempo de independência e funcionalidade em suas atividades do dia a dia” – como dirigir, trabalhar, sair de casa, viver momentos em família –, além de adiar a ocorrência de complicações graves.
O valor do tempo vivido com dignidade
Dados sobre a segurança do estudo clínico denominado PSMAfore, que foram analisados no comentário editorial, mostram que o tratamento com o radiofármaco atrasou a piora da qualidade de vida e o agravamento da dor em cerca de três a quatro meses, em comparação aos pacientes que apenas trocaram de medicação hormonal.
Na prática oncológica, meses representam um ganho imensurável. A Ma. Caroline Torricelli, biomédica, doutoranda na FCM/Unicamp, bolsista vinculada ao CancerThera e a primeira autora do artigo, diz que esse período significa “mais tempo sem dor ou dor controlada, permitindo dormir melhor, se movimentar e cumprir atividades simples”.
O foco muda da contagem de dias para a valorização da rotina preservada: “Para muitos pacientes, não é apenas um tempo extra, mas sim um tempo com menos sintomas, maior dignidade e mais funcionalidade. Então, o ponto principal não é a duração, mas como esse tempo é vivido”, ela afirma.
Proteção para os ossos e alívio da dor
Um dos maiores sofrimentos para os pacientes com tumores de próstata avançados são as metástases ósseas, que causam dores intensas e riscos de fraturas. O estudo que foi comentado pelos pesquisadores do CancerThera demonstrou que o uso precoce do radiofármaco reduziu expressivamente os eventos esqueléticos, cirurgias ortopédicas e a necessidade de radioterapia paliativa.
Mas como essa terapia com o Lutécio-177-PSMA-617 funciona nos ossos? Torricelli explica que o radiofármaco “leva a radiação diretamente às células do câncer que expressam PSMA, proteína também presente em outros tecidos do corpo, mas que, no câncer de próstata metastático, apresenta alta expressão nas lesões ósseas”.
Especificamente nessas metástases, diminui-se a atividade tumoral responsável pela inflamação, pela dor e pela fragilidade óssea, com menor impacto sobre tecidos saudáveis ao redor em comparação com tratamentos sistêmicos tradicionais. “Com o melhor controle das lesões, há menor compressão de estruturas nervosas e menor estímulo inflamatório, o que contribui para o alívio da dor, a preservação da mobilidade, a redução do risco de fraturas e a necessidade de outras terapias paliativas”, complementa Etchebehere.
Uma alternativa mais branda à quimioterapia
A quimioterapia sistêmica (com docetaxel ou cabazitaxel), embora eficaz, costuma ser o grande temor dos pacientes devido a toxicidades que geram diminuição de imunidade, náuseas, queda de cabelo e fadiga extrema. Em contrapartida, o Lutécio-177-PSMA-617 oferece um perfil de segurança muito mais favorável.
“No tratamento com Lutécio-177-PSMA-617, pacientes relatam uma rotina mais preservada, com menor impacto nas atividades diárias”, afirma Etchebehere. Os efeitos colaterais mais comuns costumam se resumir a um cansaço leve ou moderado e a alterações laboratoriais que os médicos conseguem manejar com facilidade. Além disso, a comodidade é maior: as aplicações são feitas em ciclos espaçados, permitindo que o corpo do paciente se recupere entre as doses.
“Como qualquer terapia oncológica, a que utiliza esse radiofármaco não está isenta de riscos, mas, para pacientes selecionados, a experiência pode ser menos desgastante, contribuindo para melhor qualidade de vida durante o tratamento”, destaca a médica nuclear, que, além de Torricelli, também contou, na elaboração do comentário editorial, com a coautoria da Dra. Natália Tobar, biomédica no Serviço de Medicina Nuclear do Hospital de Clínicas da Unicamp, e do Dr. André Sasse, oncologista no Grupo SOnhe/Hospital Vera Cruz.
SAIBA MAIS | O que é um comentário editorial?
No universo científico, um comentário editorial é um artigo elaborado por especialistas para analisar, interpretar e discutir as implicações práticas e clínicas de uma pesquisa recente de grande relevância. Em vez de apresentar uma nova pesquisa do zero, os autores do comentário examinam os dados de um estudo recém-publicado para colocar seus achados em perspectiva, destacar pontos fortes, limitações e orientar a comunidade médica.
Um exemplo desse gênero textual é o artigo Insights do PSMAfore: impacto na qualidade de vida relacionada à saúde, que é objeto desta matéria. O estudo que foi comentado pelos autores do artigo foi o estudo clínico de fase 3 chamado PSMAfore – especificamente, uma publicação de 2025 liderada pelo pesquisador Fizazi e colegas na revista Lancet Oncology: “Health-related quality of life, pain, and symptomatic skeletal events with [177Lu]Lu-PSMA-617 in patients with progressive metastatic castration-resistant prostate cancer (PSMAfore): an open-label, randomised, phase 3 trial”.
No comentário editorial em questão, os autores não apenas resumiram o que o ensaio PSMAfore descobriu, mas interpretaram ativamente os dados para destacar que o uso precoce do radiofármaco Lutécio-177-PSMA-617 (antes da quimioterapia) atrasou a piora da qualidade de vida e o agravamento da dor óssea em cerca de 3 a 4 meses. Eles usaram o comentário para mostrar à comunidade médica que essa mudança de estratégia terapêutica representa um ganho real na rotina, na funcionalidade e na dignidade do paciente com câncer de próstata avançado.
Texto: Romulo Santana Osthues








