Em exames de imagem que rastreiam o consumo de energia pelo corpo, o cérebro costuma ser o grande protagonista, brilhando intensamente na tela. No entanto, pesquisadores do CEPID CancerThera notaram um fenômeno intrigante: em pacientes com quadros graves de mieloma múltiplo – um tipo de câncer na medula óssea –, o brilho do cérebro aparece diminuído nessas imagens. A partir dessa observação, eles desenvolveram um método matemático simples e de baixo custo capaz de prever a agressividade da doença e as chances de sobrevivência dos pacientes.

O estudo, recentemente publicado no periódico European Journal of Nuclear Medicine and Molecular Imaging, utiliza imagens do exame chamado PET/CT, produzidas por uma composição entre um aparelho de Tomografia por Emissão de Pósitrons (PET) e outro de Tomografia Computadorizada (CT). Para a geração dessas imagens analisadas, foi utilizado o radiofármaco 18F-FDG (Fluorodesoxiglicose), uma espécie de “glicose radioativa”, para mapear onde há maior consumo de energia – revelando, assim, a atividade metabólica de tumores.
“Esse estudo surgiu de forma bastante orgânica, a partir da observação de que, em alguns exames, o cérebro de certos pacientes com mieloma múltiplo aparecia com captação do radiofármaco bem mais discreta do que em outros”, conta a Dra. Maria Emilia Seren Takahashi, física médica do Instituto de Física Gleb Wataghin da Universidade Estadual de Campinas (IFGW/Unicamp) e pesquisadora associada ao CancerThera. O estudo foi publicado sob o título “Razão diagnóstica de captação de [18F]FDG cérebro-fígado prevê a sobrevida no mieloma múltiplo: um estudo retrospectivo” (do inglês Diagnostic brain-to-liver [18f]fdg uptake ratio predicts survival in multiple myeloma: A retrospective study).
O Dr. Celso Dario Ramos, médico nuclear, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e pesquisador principal no CancerThera, fez a condução clínica da pesquisa, e explica a dinâmica da baixa captação. Ao notarem que, em pacientes com mieloma múltiplo mais grave, a captação do radiofármaco 18F-FDG era menor no cérebro, ou seja, estava indo menos glicose para o cérebro do que deveria ir, foram levantadas duas hipóteses: “a primeira seria a de competição direta entre o cérebro e o tumor pela energia oferecida pela glicose; e a outra seria a de o tumor produzir alguma substância que inibe a captação de glicose pelo cérebro”, ele diz, complementando que esses mecanismos ainda serão estudados mais profundamente para uma definição.
A Razão Cérebro-Fígado (BLR)
Para transformar essa observação visual em uma ferramenta médica palpável, a equipe propôs um índice chamado Razão Cérebro-Fígado (do inglês Brain-to-Liver Ratio – BLR). A lógica consiste em dividir o valor do brilho (captação de glicose) do cérebro pelo brilho do fígado.
Mas por que o fígado? Maria Emília Takahashi justifica: “A comparação entre cérebro e fígado foi escolhida para obter uma métrica que permitisse uma avaliação dentro do próprio paciente”. Como a captação de glicose pelo fígado costuma ser muito estável entre diferentes pessoas, o órgão funciona como uma referência confiável para a comparação.
Os resultados do estudo, que analisou exames de 72 pacientes retrospectivamente, demonstraram que indivíduos cujo índice BLR era superior a 2,7 apresentaram uma taxa de sobrevida global de 52% em cinco anos. Em contraste, aqueles com um índice menor que 2,7 tiveram apenas 10% de sobrevida no mesmo período. O índice também foi inversamente proporcional à presença de marcadores de carga tumoral já conhecidos na área oncológica.
“É importante destacar que não fomos os primeiros a utilizar a relação entre captação cerebral e hepática. Essa ideia já havia sido descrita anteriormente na literatura”, Takahashi faz a ressalva. A principal novidade do estudo conduzido no CancerThera foi a forma de quantificar essa relação e demonstrar que ela está associada à sobrevida de pacientes com mieloma múltiplo.
Para a prática médica, antecipar a gravidade do câncer no momento do diagnóstico é crucial. “Quanto mais dados nós temos sobre a agressividade do tumor, mais precisa é essa avaliação. Principalmente quando se pensa numa mudança de conduta, é necessário estar seguro para a tomada de decisão”, ressalta Celso Dario Ramos.


As figuras acima mostram como os pesquisadores medem e usam a Razão Cérebro-Fígado (BLR) em exames de PET/CT:
- Na Figura 1, eles destacam duas regiões:
- Cérebro (regiões em azul) → para medir quanto ele está consumindo glicose
- Fígado (esfera azul) → usado como referência estável
A ideia é comparar os dois valores para gerar um número (BLR).
- Na Figura 2, vemos o impacto clínico desse número:
- BLR baixo (1,1) → cérebro capta pouca glicose → paciente teve evolução pior (sobrevida curta)
- BLR alto (4,9) → cérebro capta mais glicose → paciente teve evolução muito melhor (sobrevida longa)
Resumindo: quanto menor a atividade do cérebro em relação ao fígado, mais agressiva tende a ser a doença e pior o prognóstico.
Ciência de ponta aplicável ao SUS
Uma das grandes vantagens da métrica BLR é a sua acessibilidade. O índice não exige a compra de novos equipamentos ou a realização de exames extras.
“O cálculo da BLR não exige processamento de dados complexo, nem fórmulas matemáticas sofisticadas, o que torna sua aplicação viável em qualquer serviço de Medicina Nuclear que já realize exames de PET/CT”, explica Takahashi. Ela defende que, por ser simples e utilizar programas de computador já disponíveis nas estações de trabalho dos hospitais, a abordagem poderia ser facilmente adotada no Sistema Único de Saúde (SUS) sem a necessidade de grandes investimentos.
“Como a medida desse índice não está relacionada diretamente ao tumor, mas sim a alterações metabólicas sistêmicas e a processos inflamatórios, não há uma limitação técnica que impeça sua investigação em outros tipos de câncer, ou mesmo em outras doenças”, diz a física médica. Os pesquisadores do CancerThera já estão investigando se esse mesmo comportamento se repete em tumores distintos dos de mieloma múltiplo para confirmarem se essa medida também tem valor prognóstico em diferentes situações clínicas.
Para Ramos, a descoberta propõe uma mudança de paradigma na forma como os médicos interpretam os exames oncológicos. “A principal mensagem desse estudo é que o corpo reage como um todo ao câncer, inclusive o cérebro”, reflete. “Diante de um exame de PET/CT, o médico deve analisar também a captação cerebral do radiofármaco, e não apenas aquela do tumor”, afirma.
SAIBA MAIS | O “roubo” de energia e a dieta alternativa do cérebro
Você já ouviu falar do Efeito Warburg? Descoberto na década de 1920 pelo médico Otto Heinrich Warburg, esse efeito descreve como as células cancerígenas são extremamente “gulosas”. Diferente das células saudáveis, os tumores consomem quantidades massivas de glicose (açúcar) de forma ineficiente para se multiplicarem rapidamente, produzindo como descarte metabólico uma substância chamada ácido lático (ou lactato).
No caso dos pacientes com mieloma múltiplo agressivo, onde o cérebro brilha menos nas imagens do exame PET/CT (que rastreia a glicose), os pesquisadores do CancerThera acreditam que o Efeito Warburg pode ser uma das hipóteses – conforme você leu acima. O tumor na medula consome tanta energia do corpo que acaba competindo com o cérebro pela glicose circulante no sangue.
Entretanto, o cérebro se defende: ele é capaz de adaptar sua “dieta”. O lactato produzido em excesso pelo tumor viaja pela corrente sanguínea, atravessa a barreira do cérebro e passa a ser utilizado pelos neurônios como um combustível alternativo. Ou seja, o cérebro brilha menos no exame de PET/CT não necessariamente porque está parando de funcionar, mas porque, diante do “roubo” de sua glicose favorita pelo tumor, ele passa a se alimentar do lactato que o próprio tumor produziu.
Autores do estudo
- Maria Emilia Seren Takahashi, Marcos Paulo D. S. Silva e Felipe Cardoso de Souza
Instituto de Física Gleb Wataghin, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) - Tiago Pessolo dos Santos
Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) - Christopher Cralcev, Eliana Cristina Miranda e Carmino Antonio de Souza
Centro de Hematologia e Hemoterapia, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) - José Barreto C. Carvalheira
Departamento de Radiologia e Oncologia, Universidade Estadual de Campinas(Unicamp) - Celso Dario Ramos
Serviço de Medicina Nuclear, Hospital de Clínicas, e Departamento de Radiologia e Oncologia, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
Texto: Romulo Santana Osthues | Imagens: Reprodução de exames cedidos pelos pesquisadores








