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Difusão científica e letramento: workshop sobre radiofármacos aproxima pesquisadores e imprensa

O combate à desinformação e o fortalecimento do jornalismo científico passam, inevitavelmente, pela aproximação entre quem produz ciência e quem a comunica. Com esse objetivo, o CEPID CancerThera, em parceria com a Agência Bori, realizou no dia 30 de junho o workshop “O que todo jornalista precisa saber sobre radiofármacos em diagnósticos e terapias de câncer”.

O evento, realizado de forma online, promoveu uma manhã de imersão sobre uma das áreas mais promissoras da Oncologia atual. Para Ana Paula Morales, mestre em Farmacologia, cofundadora e diretora da Agência Bori, a adesão dos profissionais evidencia a relevância da iniciativa: “O workshop mostrou como existe uma demanda real dos jornalistas por espaços qualificados de troca com pesquisadores que estão atuando na fronteira do conhecimento. Tivemos 52 inscritos, 29 participantes e representantes de veículos de todas as cinco regiões do Brasil — incluindo imprensa nacional, regional e especializada —, o que reforça a importância de ampliar essas conexões”.

Visão de futuro e compromisso social

A abertura foi conduzida pelo Dr. Carmino Antonio de Souza, médico onco-hematologista, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/Unicamp), pesquisador principal e diretor no CancerThera, que traçou um panorama crítico da incidência e dos desafios epidemiológicos do câncer no Brasil. Na sequência, o Dr. Celso Dario Ramos, médico nuclear, professor da FCM/Unicamp e vice-diretor do centro, explorou as novas vias de desenvolvimento de radiofármacos para diagnóstico e tratamento oncológicos. 

O painel foi completado pela Dra. Bárbara Juarez Amorim, médica nuclear, coordenadora do Serviço de Medicina Nuclear do Hospital de Clínicas da Unicamp e pesquisadora associada e gerente de Difusão do Conhecimento no CancerThera, que detalhou o conceito de “Teranóstico” — a integração entre diagnóstico e terapia em uma mesma estratégia de Medicina Nuclear. Segundo a pesquisadora, essa difusão é uma prioridade institucional: “O Teranóstico é o centro da pesquisa que desenvolvemos, e ainda é um termo pouco conhecido, muitas vezes mesmo dentro do próprio meio acadêmico. É muito importante que a sociedade saiba o que são os radiofármacos e para que servem, entender o quão seguros eles são”, afirma.

Amorim destaca ainda que o Teranóstico é um dos pilares da medicina de precisão, atuando como uma terapia-alvo capaz de destruir células tumorais de maneira extremamente precisa, sem afetar tecidos e órgãos sadios ao redor, técnica que já apresenta resultados consolidados em casos como o câncer de próstata e tumores neuroendócrinos.

Na avaliação de Souza, o evento tocou em um ponto crítico da saúde pública. “Creio que a primeira e mais importante mensagem é a de que o enfrentamento do câncer é o maior desafio que a humanidade vive no presente e viverá no futuro. A longevidade, associada aos hábitos de vida que assumimos, são fatores que farão com que o número de casos não se reduza, façamos o que façamos”, pontua o pesquisador.

Ciência sem mistérios

A iniciativa surgiu da necessidade de traduzir conceitos complexos, como o papel dos radiofármacos — substâncias que são capazes de diagnosticar e tratar os tumores com precisão. A aproximação entre comunicadores e cientistas também foi orientada com objetivo de desmistificar a área, especialmente o estigma em torno da Medicina Nuclear. Segundo Ramos, o termo costuma causar estranheza ou receio injustificado no público leigo. “A Medicina Nuclear, embora chame a atenção, às vezes assusta por não deixar claro o que a especialidade faz. E o que fazemos é estudar como as moléculas se distribuem pelo corpo”, explica.

Sobre o medo infundado em relação à radiação, Ramos é assertivo: “Como qualquer substância, em doses inadequadas, ela é prejudicial. Porém, em doses controladas e adequadas, é uma ferramenta poderosa e essencialmente benéfica para o paciente”.

O valor do letramento científico

Além da exposição técnica, o workshop também funcionou como um espaço de diálogo aberto e trocas sobre as dificuldades da cobertura diária de ciência. O Dr. Moura Leite Netto, jornalista e diretor da SENSU Consultoria de Comunicação, agência especializada em ciência, saúde e educação, destacou o valor da imersão proporcionada pelo evento: “Embora a medicina de precisão seja um tema presente na mídia, a Teranóstica ainda é pouco conhecida fora dos círculos especializados. A conversa com os pesquisadores do CancerThera ampliou significativamente minha visão sobre a diversidade de radioisótopos que vêm sendo estudados. Foi uma oportunidade de aprofundar um tema altamente promissor que, na minha avaliação, ainda recebe menos atenção da imprensa do que merece”, avalia.

Para o jornalista, que possui vasta trajetória na cobertura de temas relacionados à saúde e à ciência, esse contato direto é um antídoto contra a desinformação. “A rotina do jornalismo de ciência é dinâmica, e nem sempre os profissionais conseguem se dedicar exclusivamente à área. Iniciativas como esta contribuem para uma atualização qualificada, ampliam o repertório e ajudam a contextualizar descobertas que, muitas vezes, poderiam ser interpretadas de forma equivocada”, pontua.

O sucesso da iniciativa reafirma a importância de estreitar essas relações. Afinal, como pontua Morales, “o contato direto entre jornalistas e pesquisadores permite aprofundar debates, esclarecer dúvidas e oferecer uma visão mais completa sobre áreas que estão avançando rapidamente”. 


Texto: Xenya Bucchioni

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