
Quando a universidade pública abre suas portas, o conhecimento científico ganha vida fora dos laboratórios, impulsionando a troca de experiências e proporcionando muita inspiração. Foi o que aconteceu durante a 21a edição do programa Unicamp de Portas Abertas (UPA), que reuniu mais de 64 mil pessoas no campus de Barão Geraldo: o CEPID CancerThera transformou seu espaço nas arenas da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) em um ponto de encontro entre a comunidade e a medicina de precisão [abordagem terapêutica que personaliza o cuidado médico com base nas características genéticas e moleculares específicas de cada paciente e de seu tumor].
Muito além de apresentar conceitos complexos como o modelo Teranóstico [tecnologia que combina o diagnóstico por imagem e a terapia dirigida utilizando substâncias radioativas seguras], o público geral e os futuros profissionais da área de saúde puderam testemunhar como a pesquisa translacional está redefinindo o enfrentamento ao câncer ao acelerar o desenvolvimento de radiofármacos mais eficazes, reduzir efeitos colaterais e garantir tratamentos mais personalizados.
Para a maioria dos visitantes — em sua grande parte alunos do ensino médio e de cursinhos preparatórios para o vestibular —, a visita representou o primeiro contato real com o universo acadêmico. É o caso de Felipe Barbosa, morador de Suzano que nunca esteve na Unicamp e sonha em cursar medicina: “É muito diferente da nossa realidade. A gente entra aqui e é tudo muito mágico, e o pessoal muito capacitado. A arena é muito diferente do que a gente vê em uma sala de aula. Você consegue ver na fala deles que eles sabem o que estão falando”.

Essa atmosfera contagiante do evento também foi sentida pela estudante Ana Julia Rodrigues Ferreira que disse ter encontrado “um gás a mais para estudar”. “Quando você vem na UPA, você meio que se sente realizado dentro dessa experiência que conecta a pessoa com a faculdade. Você fica com brilho nos olhos”, explica. Assim como ela, a amiga Thayna Cristina da Silva, também se prepara para o vestibular em um cursinho na cidade de Guarulhos. Apaixonada por todas as áreas da medicina, Silva planeja focar em neurocirurgia e pretende, futuramente, buscar uma subespecialização voltada ao tratamento de tumores e traumas.
Por conta dessa aspiração profissional, a jovem considerou “incrível e sensacional” a experiência de percorrer o circuito das arenas do CancerThera, destacando como o contato com a pesquisa prática renovou as energias para a reta final de estudos. Ao refletir sobre o impacto da visita durante esse período intenso de preparação, ela avalia a importância do momento: “É algo que cria na gente uma esperança a mais que a gente precisa quando está prestando vestibular, que é algo bem difícil”.
Desmistificando a ciência para os jovens

Para desconstruir preconceitos e aproximar o público de temas complexos, o CancerThera preparou uma imersão dinâmica e gamificada. Ao entrarem na antessala das arenas, os jovens foram recebidos com a pergunta “O que você pensa quando ouve a palavra radiação?”. Em segundos, as respostas alimentavam uma nuvem de palavras em tempo real num telão, revelando mitos, receios e marcos importantes relacionados ao tema. Raio-x, Marie Curie, Chernobyl, radioterapia, césio e Goiânia figuraram entre os termos mais citados, demonstrando que o conhecimento dos visitantes se estendeu desde a primeira cientista ganhadora do prêmio Nobel [reconhecida pelo desenvolvimento da teoria da “radioatividade”], passando por acidentes nucleares e radiológicos até tratamentos tradicionais contra o câncer.
Em seguida, um quizz interativo com perguntas e respostas sobre conceitos científicos testava os conhecimentos dos participantes de forma leve e descontraída. Após essa introdução, os visitantes percorriam quatro arenas temáticas que desenhavam o percurso da pesquisa translacional, aproximando o público da atuação prática das pesquisas básica, pré-clínica e clínica.
O circuito iniciava na arena CancerThera, onde os visitantes eram apresentados ao conceito do Teranóstico e entendiam como os radiofármacos [medicamentos que contêm substâncias radioativas em doses mínimas e seguras para diagnosticar ou tratar o câncer] são usados para o diagnóstico do câncer, através das imagens médicas. Ali, eles também aprendiam que essas imagens podem ser usadas para entender o metabolismo e a composição corporal do paciente”, explica a Dra. Maria Carolina Mendes, nutricionista, pesquisadora associada e pós-doutoranda em Gestão da Pesquisa – Inovação e Transferência de Tecnologia no CancerThera. Na sequência, o público seguia para arena dedicada à pesquisa básica, da qual participou ao lado de outros pesquisadores o Dr. Pedro Paulo Corbi, químico, professor do Instituto de Química da Unicamp, pesquisador principal e gerente da área de Inovação no CancerThera. Segundo Corbi, o objetivo central deste ponto de percurso foi mostrar como são sintetizados os metalofármacos, incluindo os radiofármacos. Já na arena destinada à pesquisa pré-clínica, os visitantes puderam aprofundar o passo seguinte, compreendendo como os testes em células e modelos biológicos garantem a segurança das substâncias.
Por fim, na última arena, voltada à pesquisa clínica, foi abordada a chegada dessas inovações aos pacientes e o impacto de direto na qualidade de vida dos mesmos orientaram as trocas com o público.

Inversão de papeis: a experiência dos calouros
Cruzar os portões da universidade e conversar diretamente com estudantes que, até pouco tempo, estavam na mesma posição de dúvida e expectativa transformou a caminhada do vestibular em algo palpável para muitos visitantes. Se para eles o evento foi um divisor de águas, para os alunos do primeiro ano de medicina da Unicamp, a UPA 2026 marcou uma emocionante inversão de papéis. Alguns deles, anos atrás, caminhavam pelos mesmos blocos como vestibulandos cheios de incertezas; agora, na função de monitores, vestiram o jaleco para acolher a próxima geração.

Nessa exata posição, o calouro Guilherme Eduardo Morales, descobriu no evento o gosto pela educação e o diálogo com o público. Monitor na antessala das arenas, ele percebeu, ao atuar na recepção dos mais jovens, o quanto a dimensão de ensinar e compartilhar conhecimentos faz sentido em sua trajetória. O mesmo entusiasmo é partilhado pelo calouro Wiliam Ichi: “A gente está mais para o lado dos estudantes ainda do que para o lado dos médicos. Quando vemos esses alunos com o perfil que tínhamos no ano passado, sentimos uma empatia profunda e uma vontade enorme de ajudar”. Oportunidades como essa, avalia Ichi, também reforçam a importância de a universidade relembrar a participação da sociedade em sua manutenção. “Quando fazemos projetos de extensão como este, estamos nada mais do que cumprindo nossa função de integrar o conhecimento que geramos de volta para a população”, conclui.
A caloura Manuela Estato também destacou a riqueza dessa troca contínua proporcionada pelo evento e relembrou a própria persistência antes de conquistar a aprovação no vestibular — um dos mais concorridos do País. Para ela, a integração com quem ainda está decidindo o futuro é inspiradora, pois permite ver os jovens se encantando com a oncologia e saindo satisfeitos das arenas. Ao olhar para a caminhada de quem ainda busca uma vaga, ela encoraja os vestibulandos a não desistirem, reforçando que “é um caminho muito difícil o da medicina, tanto para entrar, quanto para continuar no curso e na carreira, mas é muito gratificante. Depois que você passa, você vê que tudo valeu a pena”.
Texto: Xenya Bucchioni








