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Menos efeitos colaterais, mais precisão no câncer: a aposta nos metalofármacos para vencer a barreira da pele é tema de artigo de pesquisadores do CEPID CancerThera

O câncer de pele permanece como o mais incidente no Brasil e no mundo. Embora as taxas de cura sejam altas quando detectado precocemente, as terapias convencionais – que envolvem cirurgia ou quimioterapia – carregam um peso significativo para o paciente: o risco de mutilações estéticas e a toxicidade que afeta o corpo inteiro.

Um artigo de revisão de literatura publicado recentemente na revista científica Pharmaceutics (2026, v. 18, n. 2) joga luz, entre outros temas, sobre uma estratégia promissora: o uso de metalofármacos (medicamentos à base de metais) aplicados de forma tópica e mais eficiente. O artigo, de autoria de pesquisadores do CEPID CancerThera, detalha como compostos de ouro, prata, platina, paládio, rutênio, vanádio e cobre, quando combinados com nanotecnologia, podem incidir sobre os tumores de pele sem agredir o tecido saudável.

“Os tratamentos clássicos do câncer de pele são eficazes, mas têm limitações relevantes: a cirurgia pode deixar impacto estético importante e a quimioterapia sistêmica expõe todo o organismo ao medicamento, o que aumenta o risco de toxicidade”, explica a Dra. Fernanda van Petten Vasconcelos Azevedo, biomédica e pesquisadora de pós-doutorado associada ao CancerThera, principal autora do referido artigo, intitulado Navegando pelos desafios dos agentes metalofarmacêuticos: Estratégias e modelagem preditiva para a terapia do câncer de pele (do original em inglês “Navigating the challenges of metallopharmaceutical agents: Strategies and predictive modeling for skin cancer therapy”).

Representação esquemática dos principais fatores causadores do câncer de pele (predisposição genética, disfunção imune, radiação ultravioleta e exposição química) e dos subtipos: carcinoma basocelular, carcinoma espinocelular e melanoma | Imagem criada com BioRender pela pesquisadora Fernanda van Petten.

Segundo ela, é preciso desmistificar a ideia de que metais na Medicina são uma novidade absoluta, citando a cisplatina como um exemplo histórico. No entanto, a inovação atual para o câncer de pele reside na estratégia de administração: “Em vez de depender apenas da via sistêmica, buscamos metalofármacos desenhados para atuação local e combinados com sistemas de liberação para concentrar o efeito no tumor cutâneo e minimizar a exposição do resto do corpo. Essa abordagem busca unir eficácia antitumoral, menor toxicidade sistêmica e preservação funcional/estética, que são prioridades claras em tumores de pele”.

No artigo, também são descritos os avanços em tecnologias que facilitam a penetração na pele e protegem a integridade desses metais, como hidrogéis, microagulhas, membranas de nanocelulose bacteriana e nanopartículas (como lipossomas e micelas). Além disso, os autores examinam o papel da terapia fotodinâmica e o uso de modelagem matemática e computacional para simular o transporte de medicamentos e prever sua distribuição no organismo. O objetivo dessas estratégias é unir a inovação físico-química à aplicação clínica, possibilitando tratamentos mais seletivos, estáveis e acessíveis.

Infográfico elenca as principais tecnologias avaliadas no estudo para a entrega de metalofármacos em câncer de pele | Imagem criada com BioRender pela pesquisadora Fernanda van Petten.

Vencendo barreiras: microagulhas e membranas de nanocelulose

A revisão aponta que a eficácia dos compostos metálicos está na capacidade de gerar um desequilíbrio fatal dentro das células tumorais. Enquanto as células saudáveis conseguem lidar com certas cargas de metais, as tumorais, que já operam no limite, entram em colapso. Azevedo detalha o mecanismo: “As células do câncer já vivem sob muito estresse, porque crescem rápido e funcionam de maneira desorganizada. Os compostos metálicos aumentam ainda mais esse estresse interno – um processo chamado ‘estresse oxidativo’ –, que prejudica o funcionamento normal da célula tumoral”. Ela complementa que esses compostos danificam o DNA da célula cancerígena, impedindo sua multiplicação: “Com o acúmulo de estresse interno e o dano ao DNA, a célula do tumor perde o controle de seus mecanismos de sobrevivência e acaba morrendo. Como as células cancerígenas são mais sensíveis a esse tipo de dano do que as células normais da pele, esse mecanismo permite atingir preferencialmente o tumor”.

A origem superficial dos principais tipos de câncer de pele, como carcinomas e melanoma, favorece a aplicação de estratégias de tratamento local, permitindo que medicamentos potentes, como os metalofármacos, sejam direcionados especificamente à lesão. Ao concentrar a ação do fármaco na área do tumor, é possível aumentar a eficácia terapêutica e, simultaneamente, evitar que a substância circule por todo o organismo, o que reduz a toxicidade sistêmica e garante maior segurança ao paciente.

Entretanto, o desafio da aplicação tópica (em cremes ou adesivos) é ultrapassar a camada mais externa da pele, o estrato córneo, que atua como uma barreira protetora. “No caso dos metalofármacos, fatores físico-químicos, como tamanho molecular, carga elétrica, solubilidade e estabilidade química, podem limitar sua penetração. Mesmo compostos com alta atividade antitumoral podem ter dificuldade em atravessar a pele em quantidade suficiente para alcançar o tumor”, ressalta a biomédica.

Para contornar isso, o artigo lista tecnologias físicas como as microagulhas – dispositivos minúsculos que criam canais indolores na pele. “No tratamento do câncer de pele, as microagulhas facilitam a entrega localizada e controlada de metalofármacos, ajudando a vencer a barreira natural da pele. Elas são consideradas promissoras porque causam desconforto e dor mínimos quando comparadas às injeções tradicionais”, afirma a pesquisadora.

Outra frente tecnológica abordada no artigo é o uso de membranas de nanocelulose bacteriana. Um grupo de pesquisa atuante no CancerThera já obteve sucesso pré-clínico com um complexo de prata e nimesulida incorporado a essas membranas, que funcionam como um “adesivo” terapêutico.

A Dra. Carmen Silvia Passos Lima, oncologista e hematologista, professora da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pesquisadora principal no CancerThera, destaca a eficiência desse sistema na manutenção do tratamento. “As membranas de nanocelulose bacteriana utilizadas em estudo anterior conduzido por nós têm grande importância, pois proporcionam a liberação sustentada de doses equivalentes do fármaco – no caso, o complexo de prata – sobre o tumor”, ela explica. “Isso faz com que não seja necessário substituir o adesivo frequentemente, poupando assim recursos financeiros sem perder a eficácia do tratamento”, avalia.

O futuro é digital e clínico

O artigo também ressalta a importância da modelagem matemática e computacional para prever até onde o medicamento penetra na pele – otimizando as doses antes mesmo dos testes biológicos –, podendo demonstrar quais novos fármacos podem ser indicados para o tratamento de tumores de pele superficiais ou profundos: “Os modelos desenvolvidos para prever a profundidade que o medicamento alcança na pele é de grande interesse, pois poderão poupar os estudos convencionais de permeabilidade de fármacos em membranas sintéticas que simulam a pele humana ou na pele de animais”, aponta Lima.

A pesquisadora afirma, ainda, ser fundamental que esses modelos sejam validados por avaliações convencionais de penetração de fármacos em camadas da pele (como as mencionadas), e em estudos pré-clínicos em animais de pequeno porte para que, só então, sejam utilizados na prática clínica.

Quanto à chegada dessas inovações aos pacientes, a professora revela que a ciência já está saindo da bancada para o hospital. “Considerando que nós já observamos que as membranas de nanocelulose impregnadas pelo complexo de prata foram eficazes, reduzindo substancialmente o tamanho dos tumores, e se mostraram seguras em camundongos (desprovidas de toxicidade local ou sistêmica ou com toxicidade aceitável), o próximo passo é o estudo clínico – em humanos”.

Esse estudo, ela conta, já está sendo conduzido no Hospital de Clínicas da Unicamp pelos pesquisadores do CancerThera em pacientes com tumor de pele – o carcinoma de células escamosas especificamente. Tendo à frente dos procedimentos a farmacêutica e pesquisadora de pós-doutorado Gisele Goulart da Silva e sob a supervisão de Lima, o estudo contempla duas fases: a primeira verificará a dose adequada do complexo de prata em membrana de nanocelulose a ser administrada aos pacientes; a segunda avaliará a eficácia do tratamento. 

“Os adesivos impregnados pelo complexo de prata só poderão chegar às farmácias e aos hospitais se os resultados do estudo clínico indicarem que o tratamento é eficaz e seguro para uso em humanos e após aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)”, alerta Lima.

Infográfico exibe estratégias em nanotecnologia para estabilizar e entregar metalofármacos em câncer de pele. O esquema ilustra os principais desafios dos metalofármacos livres, incluindo baixa solubilidade em água, troca de ligantes, degradação química (oxidação/hidrólise) e toxicidade fora do alvo (painel esquerdo), e destaca as plataformas de nanocarreadores (painel central) projetadas para superar essas limitações por meio de encapsulação protetora e liberação controlada | Imagem criada no BioRender pela pesquisadora Fernanda van Petten.

Curiosidades metálicas

  • Não é só joia: Além de ouro e prata, metais como rutênio, cobre e vanádio estão sendo explorados na composição de fármacos. Cada um possui uma “assinatura” química diferente, permitindo atacar tumores que desenvolveram resistência aos tratamentos comuns.
  • A pele é um escudo: O estrato córneo, a camada mais externa da pele, tem a espessura aproximada de uma folha de papel de seda (10 a 20 micrômetros), mas é incrivelmente eficiente em impedir a entrada de substâncias. É por isso que tecnologias como as microagulhas são essenciais.
  • Bactérias “tecelãs”: A nanocelulose usada nos curativos citados no estudo é produzida por bactérias (como as do gênero Komagataeibacter). Elas tecem uma rede de fibras puríssimas, muito mais finas que um fio de cabelo, capazes de reter água e medicamento, criando um ambiente ideal para o tratamento.
  • Agulhas que somem: Algumas das microagulhas citadas no estudo são “dissolúveis”. Feitas de polímeros biocompatíveis, elas penetram a pele, liberam a carga de metalofármaco necessária e desaparecem sem deixar resíduos, eliminando o lixo hospitalar de agulhas perfurocortantes.

Autores do artigo

Fernanda van Petten Vasconcelos Azevedo | Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas, Brasil.
Ana Lúcia Tasca Gois Ruiz | Faculdade de Ciências Farmacêuticas, Universidade de Campinas, Campinas, Brasil.
Diego Samuel Rodrigues | Faculdade de Tecnologia, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas, Brasil.
Douglas Hideki Nakahata | Centro Internacional de Física de Donostia – DIPC, Donostia, Gipuzkoa, Espanha.
Raphael Enoque Ferraz de Paiva |  Centro Internacional de Física de Donostia – DIPC, Donostia, Gipuzkoa, Espanha; e Departamento de Química, Faculdade de Ciências, Universidade Autônoma de Barcelona, Cerdanyola del Vallès, Barcelona, Espanha.
Daniele Ribeiro de Araujo | Departamento de Biofísica, Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), São Paulo, Brasil.
Ana Carola de La Via | Centro de Ciências Naturais e Humanas, Universidade Federal do ABC (UFABC), Santo André, Brasil.
Wendel Andrade Alves | Centro de Ciências Naturais e Humanas, Universidade Federal do ABC (UFABC), Santo André, Brasil.
Michelle Barreto Requena | Instituto de Física de São Carlos (IFSC), Universidade de São Paulo (USP), São Carlos, Brasil.
Cristina Kurachi | Instituto de Física de São Carlos (IFSC), Universidade de São Paulo (USP), São Carlos, Brasil.
Mirian Denise Stringasci de Azevedo | Instituto de Física de São Carlos (IFSC), Universidade de São Paulo (USP), São Carlos, Brasil.
José Dirceu Vollet-Filho | Instituto de Física de São Carlos (IFSC), Universidade de São Paulo (USP), São Carlos, Brasil.
Wilton Rogério Lustri | Instituto de Biociências, Universidade de Araraquara (Uniara), Araraquara, Brasil.
Vanderlei Salvador Bagnato | Instituto de Física de São Carlos (IFSC), Universidade de São Paulo (USP), São Carlos, Brasil.
Camilla Abbehausen | Instituto de Química, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas, Brasil.
Pedro Paulo Corbi |  Instituto de Química, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas, Brasil.
Carmen Silvia Passos Lima | Faculdade de Ciências Médicas, Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Campinas, Brasil.


TextoRomulo Santana Osthues

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